Stuck in the middle with you

Na sua já tradicional entrevista de pré-ciclo eleitoral, o primeiro-ministro fez por mostrar que está de pedra e cal, por mais fustigada que vá sendo a pintura e temporais que lhe consiga sobreviver. Remodelação? Ni hablar. Sucessão? Falamos daqui a dois anos. Farto de governar? Nada disso, que vem aí dinheiro como nunca. Próximo orçamento? Conto com todos, incluindo os que sofrerem nas autárquicas (o PCP) e os que desertaram em 2020 (o BE). Num esforço alegre e bem-sucedido, António Costa foi um otimista mais contagiante do que propriamente irritante. E talvez tenha razões para isso.

Na entrevista, mais uma conversa, o único remoque político foi direcionado a um homem que está fora do ativo há quatro anos, Passos Coelho, que acha que "as reformas se fazem em confrontação", enquanto Costa acredita que se fazem "em concertação, diálogo e mobilização". Vindo do primeiro-ministro que mandou chumbar toda e qualquer proposta parlamentar originária da bancada de Passos, no último Orçamento do Estado que o teve como líder da oposição, a evolução para a moderação é notória.

O mesmo se pode dizer da sua defesa da previsibilidade e da "normalidade democrática" ("Percebo que a normalidade deve ser muito irritante, mas o país tem de se habituar a viver com normalidade e a normalidade é de quatro em quatro anos os portugueses escolhem uma solução governativa e essa solução deve executar o seu programa e findos os quatro anos é avaliada"), quando era justamente esse argumento - da previsibilidade, da escolha dos portugueses, da avaliação feita - que os contestatários, no PS e fora dele, contrapuseram à sua geringonça de 2015.

Mas descartando a memória e a comparação, a entrevista de Costa à revista do Expresso foi essencialmente sobre futuro e concretamente sobre o futuro do seu partido. Quanto a Portugal, assume que nunca se perdoaria "não liderar o país neste momento tão importante para a sua transformação estrutural". Como transformará estruturalmente o país sem maioria no parlamento e dependente de partidos que mantêm uma visão estruturalmente diferente da sua é um mistério. Mas não exatamente um mistério que o tenha maçado muito a ele ou aos portugueses, já agora nos últimos seis anos.

Sobre o Partido Socialista e a temática da sua sucessão, foi igualmente labiríntico. "Não haverá tabu." Ora, não havendo tabu sobre haver tabu, haverá mesmo tabu sobre o tabu. Decidirá "em 2023" se é recandidato a primeiro-ministro. Após lembrar - e não é a primeira vez que o faz - que o seu sucessor tanto pode ser um homem como uma mulher, baralhando as contas dos mais ambiciosos, acrescentou agora as "várias gerações" de onde poderá vir o próximo secretário-geral do PS. Se Medina, Pedro Nuno, Ana Catarina e Mariana Vieira da Silva são todos relativamente próximos de idade, de quem falará António Costa? Mário Centeno, que se saiba, é ainda independente.

Certo é que, depois de Santos Silva pedir ao PS que o deixe "regressar à universidade", temos o chefe de governo a chutar para canto a sua própria permanência. Como se, de alguma forma, se tenha instalado um pressentimento de despedida na paisagem política. Como se, de alguma forma, o crepúsculo da era Costa/Marcelo seja algo que todos aceitam mas para o qual ninguém está realmente preparado. Como se, de alguma forma, caso as entrevistas merecessem banda sonora, a de Costa no passado fim de semana houvesse sido acompanhada pelos Stealers Wheel, eternizados na primeira longa-metragem de Quentin Tarantino (Reservoir Dogs, 1992), cantando a letra assim: "... And I"m wondering how I"ll get down the stairs; clowns to the left of me, jokers to the right, here I am stuck in the middle with you...".

E nós presos a ele.

Colunista

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