Solidão e situacionismo

1 - Se a estrada para o poder é habitualmente solitária, a estadia na governação tende a gerar isolamento. António Costa, por mais virtuosas que sejam as suas qualidades políticas, não é estranho a esse fenómeno. O primeiro-ministro, dono de um núcleo duro experimentado e chefe de um partido familiar, manda em muito, contando com poucos. O seu governo, feito de proximidades, anda desencontrado. Os seus homens, outrora indispensáveis, afastaram-se, desgraçaram-se; quando não ambas.

Diogo Lacerda Machado, amigo de sempre, saiu da administração da TAP e, ao que aparenta, distanciou-se definitivamente da órbita de São Bento. Eduardo Cabrita, indefetível camarada, foi de companheiro de uma vida para peso morto do executivo. Augusto Santos Silva, a quem se entregou a presidência europeia, prossegue fardado de cinismo numa era que marcha ao toque de ideais; visivelmente enfadado de ser ministro e na calha, como já há muito se sussurra, para suceder a Ferro Rodrigues na presidência da Assembleia da República, tendo esta semana demonstrado como o cargo desespera por sobriedade. Pedro Nuno Santos e Fernando Medina, um ativista da TAP e um tapado por ativistas, têm tempestades de previsão própria. Siza Vieira, eventualmente o mais capaz dos seus governantes, não é um homem do PS, apesar de se ter feito um homem da política. Ana Catarina Mendes não será com certeza indiferente à persistência com que o primeiro-ministro, que nunca se cansou de defender, vai empurrando Mariana Vieira da Silva para o leque da sucessão. José Luís Carneiro, número 2 do partido, não será igualmente indiferente ao modo como foi destratado no dossier da Câmara do Porto.

Se esta bagunça, que não tem outro nome, presidiu o conselho da União Europeia com a devida escandaleira e risada internacional, podemos imaginar como serão os seus próximos anos de gestão de fundos, recuperações, resiliências e quadros orçamentais. Matéria de escrita não faltará. Quando um governo de proximidades se desconjunta, a perceção de assintonia pode tardar, mas os seus efeitos não serão menos devastadores. Para dentro e para fora. Para eles e para nós.

2 - Os tempos, dada a paisagem e os protagonistas, não anunciam, por isso, nada de novo. Costa fez um primeiro mandato de estabilização, talvez justificado pelo trauma da troika e pela incógnita política que a "geringonça" representava, tirando-nos, felizmente, do défice excessivo e da denominada crispação partidária. O resultado, hoje claro, foi uma desvirtuação da identidade do Partido Socialista, não apenas dos seus pergaminhos centristas, como do seu histórico reformador. Tirando a implementação do passe social, uma revolução na mobilidade e no dia-a-dia dos portugueses, nada mudou. Lendo o PRR, rapidamente se entende que o segundo mandato não será diferente, nem destes últimos cinco anos, nem dos últimos vinte. Vivemos, e continuaremos a viver, num situacionismo estrutural: as posições europeias revestem-se de "deveres de neutralidade", o desconfinamento faz-se no consenso da ignorância e as alterações às leis laborais farão o necessário equilibrismo entre o não recuar demasiado em relação ao que a direita fez e o seduzir suficientemente o voto do PCP para o próximo Orçamento.

Naturalmente que, assim, não há grande futuro. Era preciso que alguém o quisesse.

Colunista

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