Sobreviver não é ganhar 

A direita está diante de uma porta para a qual não tem chave. As baixíssimas expectativas em torno do seu resultado eleitoral fizeram de domingo uma derrota vitoriosa, mas nem por isso uma antecâmara de regresso à governação. Se em 2015, em legislativas, lhe foi servido o amargo de ganhar sem alcançar o poder, em 2021, estas autárquicas desdobraram-se de outra maneira: perdeu-se, mas recuperou-se força. A queda do Partido Socialista nos grandes centros urbanos, demonstrando a falência do discurso do atual governo, não significa que António Costa deixe de ser primeiro-ministro no futuro mais próximo, mas que o PSD pode ambicionar chegar a São Bento antes de 2027 sem parecer insano - algo que lhe era inacessível antes desta semana.

A porta, portanto, materializou-se. Resta examinar a fechadura, desenhar a chave de formato certo e saber girar a maçaneta no tempo devido. Se a área não-socialista é capaz - ou sequer merecedora - de voltar a cruzar a linha que separa o pântano da oposição da incerteza da governação, é algo por responder. O modo como o PSD se posiciona no espectro ideológico, a alergia que a IL tem aos partidos fundadores do regime, o caminho para a irrelevância deste CDS e a incoerência estratégica do Chega, se juntas, somam insuficiências que não apontam resultados felizes. É claro que, perante qualquer fragrância a poder, tudo o que os separa se diluirá num misto de ambições pessoais, sobrevivências partidárias e natural ânsia de alternância. Também com a esquerda foi, afinal, assim. Se a esquerda aprendeu a viver com os seus contrastes, a direita será forçada a ignorá-los em nome do mesmo pragmatismo que salvou Costa em 2015. E essa esquerda, olhando para o triunvirato que então assinou a "geringonça", não ficou deitada no melhor dos lençóis após a noite autárquica.

A direita celebra essas perdas alheias, camuflando as suas próprias dificuldades, não apenas dos últimos seis anos, como dos tempos que correm. O CDS, desde as legislativas de 2019, não consegue qualquer sinal de sucesso. Colou-se ao segundo lugar do PSD nos Açores para, com o Chega, roubar o governo regional ao PS; tentou, depois, trepar pela recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa acima, quando a popularidade do Presidente é, quando muito, meia-irmã dos socialistas e não da direita; e colocou-se, agora, sob o chapéu-de-chuva local dos sociais-democratas, negociando coligações em concelhos onde perdeu vereadores, quando os conseguiu eleger. Chicão celebra, como se a beira do precipício fosse uma pista de dança, e canta contra quem lhe antecedeu. Desafinado e em tenor, o presidente do CDS não teria, certamente, os 21% que Assunção Cristas teve, sozinha, em Lisboa, caso tivesse sido candidato à capital, como não teria os 4,2% que tanto ataca, caso arriscasse ir sem coligação a legislativas. Se um piano lhe caísse em cima ao sair de casa era homem para aplaudir o som que dele saísse.

O dr. Rui Rio, por outro lado, tem razões para sorrir. A sua escolha de candidatos à lei de estudos de opinião e o enterrar do machado de guerra com os movimentos independentes ‒ exceto, evidentemente, com Rui Moreira ‒ funcionou. Nacionalmente, o PSD não ganhou muitos mais votos do que em 2017 - menos de 20 mil -, mas conquistou capitais de distrito, surpresas alentejanas e a cidade de Lisboa. Se estiver farto disto, Rio sai bem. Se quiser tentar 2023, tem argumentos para levar a congresso.

Alguma mudança, para abrir a tal porta, seria bem-vinda.

Colunista

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