Querem dez razões para não vacinar já os políticos?

Anunciar, nesta fase, que na semana que vem entram para uma lista de prioridades na vacinação para a covid-19 Presidente da República, primeiro-ministro, ministros, secretários de Estado, funcionários da Assembleia da República, membros do Conselho de Estado, Provedora de Justiça, membros das regiões autónomas e presidentes de câmara municipal é uma estupidez política inacreditável.

Em primeiro lugar: tal anúncio demonstra que quem decidiu tem as prioridades invertidas em relação ao raciocínio que qualquer banal cidadão, neste caso, teria. Prever vacinar políticos antes de estar terminado o processo de vacinação no pessoal de saúde e de ainda nem sequer se saber quando a vacina vai ser dada a médicos e enfermeiros que trabalhem no setor privado é contrariar o senso comum, sem apresentar qualquer argumento convincente.

Em segundo lugar: como quem decidiu isto é também favorecido pela medida, está a praticar um ato suspeito de egoísmo, de benefício em causa própria, com possíveis consequências mortais para quem fica para trás.

Em terceiro lugar: quem determina uma coisa destas está a meter a cabeça num cepo político onde, como é óbvio, Ordem dos Médicos e Ordem dos Enfermeiros - liderados por opositores ao governo - tratarão de proceder à execução do previsível condenado na opinião pública.

Em quarto lugar: numa altura em que os hospitais privados multiplicam rotinas de colaboração com o Serviço Nacional de Saúde, quer no combate à pandemia quer em tratamentos de outras doenças, deixar os seus profissionais atrás dos políticos na prioridade de vacinação é, dado o ambiente político atual, convidá-los a recusar trabalhar nessas condições, ainda por cima com provável apoio da opinião publicada.

Em quinto lugar: ter pessoal político de segunda linha numa lista de prioridades, à frente dos profissionais de saúde, do público e do privado, que não entraram na primeira lista e, ainda, à frente dos utentes dos lares de idosos, onde o número de mortes é elevado, é desprezar a vida de quem corre certamente maiores probabilidades de contágio do que, por exemplo, um membro do Conselho de Estado.

Em sexto lugar: ter a mesma lista de pessoal político de segunda linha precedência em relação a idosos com mais de 80 anos - que ainda nem sabem quando será possível começarem o processo de vacinação - é atirá-los a eles e às famílias, confinadas há meses num medo quase insuportável, diretamente para o lado dos que prometem "acabar com o sistema" ou com o "socialismo".

Em sétimo lugar: esta medida vai quebrar a confiança que, apesar de tantos incidentes e de tantas polémicas, de tantos infetados e de tantas mortes, permanece forte em relação às líderes do combate à pandemia: a ministra Marta Temido e a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas. Se os níveis de confiança nelas caírem para níveis demasiado baixos, o combate à pandemia e o próprio processo de vacinação correm o risco de se tornarem ingovernáveis.

Em oitavo lugar: esta medida vai permitir aos chicos-espertos da pequena política de fazerem o número de recusarem tomar a vacina - se querem continuar a dar borlas ao lado perigoso do populismo, então estão no bom caminho.

Em nono lugar: esta lista surge depois dos casos de alguns presidentes de câmara terem aproveitado a sua ligação a Misericórdias para se vacinarem antes de tempo. Há aqui suspeita de legitimação, a posteriori, de um abuso.

Em décimo lugar: "Quando um navio está a afundar-se, o último a salvar-se é quem o comanda." Foi isto que nos ensinaram a todos quando éramos pequeninos para alinharmos com a suposta moral e ética da sociedade. Na vida real, pelos vistos, não é assim.

Estou mesmo à espera de ouvir a acusação: o Tadeu está a ceder ao populismo... Pois, agora sempre que se criticam privilégios incompreensíveis do poder político e económico leva-se com essa na cara - e é também por se alimentar essa confusão que o verdadeiro populismo se anda a safar tão bem!


Jornalista

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