Quando já não há palavras

O que dizer do indizível? Como qualificar o inqualificável? Depois de cerca de dois anos e meio de Jair Bolsonaro, a crónica brasileira, a quem é pedido que o conte e interprete todos os dias, está esgotada - ou em burn out para usar uma expressão estrangeira mais na moda.

Os leitores também. Antonio Prata, cronista do jornal Folha de S. Paulo, partilhou no fim de semana passado a carta de um a pedir para o colunista não se referir mais "àquele assunto" nos seus artigos, de maneira a "deixar os leitores respirarem" nesta fase em que falta literalmente o ar a milhares de brasileiros, sendo que o "assunto" em causa é, logicamente, o presidente da República.

Prata prometeu então escrever apenas um de cada quatro textos mensais sobre o "assunto" - nos outros três, portanto, qual músico do Titanic, omitirá o naufrágio de um país que chocou contra um icebergue em forma de capitão na reserva.

Entretanto, há outro caminho, cada vez mais trilhado por cada vez mais articulistas, para driblar o burn out crónico da crónica: numa edição anterior do mesmo jornal, a colunista Mariliz Pereira Jorge usou o espaço à sua disposição para, em vez de denunciar a última canalhice ou a mais recente insanidade presidencial, listar centenas de adjetivos aplicáveis ao "assunto". Eis um trechinho aleatório: "Salafrário, imbecil, lunático, bufão, garganta, farofeiro, farsante, oportunista, indefensável, broxável, carniceiro, irresponsável, excrementíssimo."

Terminava, não por acaso, com "pequi roído" e "genocida".

Não por acaso porque Carlos Bolsonaro, o filho presidencial com a pasta da Propaganda, pedira dias antes a um juiz para intimar um youtuber que usou o "genocida" e o ministro da Justiça André Mendonça mandara a polícia investigar o sociólogo que instalou dois outdoors com uma foto do presidente e a frase "não vale um pequi roído" - uma expressão comum no estado de Tocantins para caracterizar um inútil, uma vez que, depois de roído o pequi, um fruto local, sobra apenas um caroço cheio de picos.

Inspirado pelo texto dos adjetivos, um advogado da Paraíba animou-se e escreveu uma versão só com insultos nordestinos: "abestalhado, otário da bocona, mané de bota, chupa-cabra, cri-cri, malassombro, mequetrefe, frouxo, rascunho do mapa do inferno, fi dum que ronca e fuça, fi da peste, orelha seca, pangaré, catingoso", foram alguns dos atributos escolhidos por Olímpio Rocha.

Mas um mês antes de Mariliz Pereira Jorge, no mesmo local do mesmo jornal, o cronista Ruy Castro já havia classificado o "assunto" de A a Z. Terminava com "tétrico, tirano, torpe, tosco, traíra, trambiqueiro, ultrajante, vândalo, vigarista, vulgar, xarope, zoilo" antes de pedir "perdão aos assassinos, necrófilos, bestas-feras e quaisquer categorias que se sintam ofendidas".

E em agosto de 2019, ou seja, antes mesmo de a pandemia ter revelado o pior do pior do pior do ainda inquilino do Planalto, o escritor e linguista Sérgio Rodrigues e a escritora e atriz Fernanda Torres, divertiam-se nas páginas dos jornais a sugerir neologismos para caracterizar o presidente.

"Mórtigo, brúmbio, escosso, bilinhento, vômil, peçoncôrnio, neféstilo, nojúnculo, cloástico, peidófilo", inventou ele. "Escombruloso, remelético, xonho, gosmorrúnculo, viborongo, pustulibundo, espanta-mulho, esfornedor de bóstola, górgulo, nucuz", respondeu ela.

Afinal, quando não há mais palavras para o indizível e inqualificável, sobram as palavras.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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