Quando a UE e os EUA viram costas, o mundo fica para trás

Em cima do acontecimento, é sempre complexo fazer balanços de eventos como a cimeira UE-EUA, realizada nesta terça-feira em Bruxelas. No entanto, no caso concreto, julgo que a palavra "sucesso" já pode ser usada sem cerimónias, porque esse sucesso estava garantido a partir do momento em que as partes se sentaram à mesa para discutir temas como o comércio, a tecnologia, o clima, a luta contra a covid-19 e o posicionamento comum face à China e à Rússia.

Como defenderam 20 eurodeputados, incluindo o meu colega Paulo Rangel, num artigo de antecipação da cimeira publicado no jornal online EU Observer, "em vez de falarem um com o outro", a União Europeia e os Estados Unidos têm passado os últimos anos a falar "um sobre o outro". E esse statu quo não era negativo apenas para os dois blocos: estava objetivamente a prejudicar o mundo inteiro. Estava a criar um vazio que outras potências, com prioridades e princípios muito diferentes daqueles que têm sido historicamente defendidos pelos parceiros transatlânticos, vinham a ocupar tanto no plano económico como no político.

As dificuldades de relacionamento, acentuadas durante a administração de Donald Trump, eram um tema recorrente nas reuniões da Delegação para as Relações com os Estados Unidos do Parlamento Europeu, da qual sou membro efetivo. E confesso que, para alguém que cresceu a encarar a América como exemplo para o mundo, e sobretudo para alguém que tinha plena consciência da importância das relações transatlânticas para enfrentarmos desafios críticos, como as alterações climáticas, assistir a este estado de coisas chegava a ser doloroso.

Por isso, o simples facto de vermos Joe Biden lado a lado com Ursula von der Leyen e Charles Michel, no Conselho Europeu, e de os ouvirmos sublinhar a importância mútua que atribuem ao seu relacionamento histórico, é uma lufada de ar fresco e um sinal de esperança. Falta agora dar substância a esta reaproximação com uma série de compromissos urgentes e inadiáveis.

O regresso dos Estados Unidos aos Acordos de Paris foi um primeiro passo nesse sentido. Tal como foi a disponibilidade das partes para a criação de um conselho UE-EUA para o comércio e a tecnologia, confirmada nesta cimeira de Bruxelas. E da qual o anúncio de um acordo para resolver um conflito com 17 anos sobre subsídios públicos à Boeing e à Airbus é já um primeiro resultado animador. E tal como tinha sido a cimeira da NATO desta segunda-feira, também em Bruxelas.

Mas há um longo caminho a percorrer em matéria de políticas de dados, de partilha e desenvolvimento de tecnologia, de segurança, de tarifas, de caminhos concretos para combater as alterações climáticas e, no que aos desafios mais imediatos diz respeito, de coordenação estratégica da luta, a nível mundial, pelo fim da pandemia de covid-19.

Os Estados Unidos e a União Europeia não passaram a estar de acordo em tudo com a chegada da nova equipa da Casa Branca. Subsistem divergências significativas em vários dossiês. É de esperar que surjam novos sobressaltos no percurso. No entanto, pela primeira vez em algum tempo, temos motivos para olhar para esta relação com otimismo.

Ao longo destes anos, apesar do arrefecimento das relações políticas, as empresas, as universidades, os centros de investigação da União Europeia e dos Estados Unidos nunca deixaram de se relacionar e de procurar soluções conjuntas para problemas comuns. As vacinas, desenvolvidas com investigação europeia e potenciadas por investimento norte-americano, são um exemplo. No fundo, estamos obrigados a entender-nos. Para o bem de nós e para o bem do mundo.

Eurodeputada

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