Propaganda cautelar 

Excetuando a infâmia luso-moscovita, as demais detentoras do título de caso da semana possuem palco comum: a televisão pública. Tanto a criticada Carta Portuguesa dos Direitos Humanos na Era Digital quanto a nomeação de Pedro Adão e Silva para comissário executivo do cinquentenário do 25 de Abril guardam, de uma forma ou de outra, pontos de contacto com a RTP.

Por partes, a peripécia é breve. Filomena Cautela estreou o seu novo programa no horário nobre da estação, dedicando uma parte considerável do mesmo à controversa lei que escrutinará o espaço digital português. Apesar de personalidades tão díspares quanto Helena Garrido, Pacheco Pereira e António Barreto terem vindo alertar para os riscos da intromissão do Estado no que é ou não "verdade", Cautela não hesitou em tomar posição e manifestar até preferência pelo polémico artigo da dita carta, que prevê "a atribuição e selos de qualidade por entidades fidedignas dotadas de estatuto de utilidade pública". Pelo caminho, entrevistou o Presidente da República, que assegurou que a censura não vinha aí (logo ele, que se divertiu tanto a fugir dela) e o deputado que concebeu a lei, que prontamente a tranquilizou do mesmo (que remédio).

Tudo isto estaria bem e não teria problema de maior, caso fosse verdade. Filomena Cautela, certamente bem-intencionada, apresentou um programa contra a desinformação, desinformando. O deputado que entrevistou de rajada nos corredores do parlamento é, sim, o autor da lei, mas será também o responsável pela alteração (e retificação) do tal artigo 6º, que Cautela tanto louvou. Qualquer jornalista de política o apuraria em minutos. Por outro lado, com uma equipa de pesquisa mais empenhada, Cautela teria também descoberto que a Carta Portuguesa tem, sim, álibi europeu, mas diverge em muito da prática europeia no que concerne ao combate à desinformação.

Como clarificou Filipa Brígola, especialista em assuntos comunitários, em artigo publicado há dias, a Europa entende a desinformação como um fenómeno de grande escala, fiscalizando-o no seu contexto sistémico e não em posts individuais, como a Carta Portuguesa potencia. E finalmente, com um espírito crítico mais atento, talvez fosse pertinente perguntarmo-nos se queremos mesmo empresas privadas, com carimbo do Estado ou não, a vigiar o nosso espaço público. Se essas empresas tiverem capital estrangeiro, o que acontece às opiniões portuguesas sobre os seus países? Também serão consideradas "narrativas" falsas?

Quanto a Adão e Silva, que garantiu em entrevista que não sairia beneficiado pela sua ida da universidade pública para a administração pública, sobra uma questão: e o seu vínculo, como comentador, à televisão pública? Se nas suas novas funções se propõe reunir e incluir todos os líderes das forças democráticas, vai comentar e criticar a sua ação política à quinta-feira e discutir as celebrações de Abril com eles à sexta? Não o invejo.

P.S. - O país atravessou, este fim-de-semana, um momento de séria fragilidade internacional. A delação de ativistas russos ao regime de Vladimir Putin em plena presidência europeia, com o conhecimento da Câmara de Lisboa e do governo, exigia que o primeiro-ministro viesse a público demarcar-se do sucedido e reafirmar o compromisso de Portugal com as liberdades democráticas. É a consciência dos portugueses e a confiança dos nossos aliados que está em causa. António Costa precisa de sair da praia.

Colunista

Mais Notícias

Outras Notícias GMG