Prioridade: ricos e poderosos

Batizado provavelmente em homenagem a Randolph Scott, ator de westerns dos anos 50, o secretário de Saúde Randolph Scoot, de Serra do Navio, município de 5000 habitantes do Amapá, desdenhava, como tantos brasileiros alimentados pelas "notícias" de WhatsApp editadas pelos filhos de Bolsonaro, da vacina Coronavac, por ser fabricada na China comunista e por ter sido desenvolvida em São Paulo, o palco de João Doria, governador do estado e principal rival do presidente.

Chegadas 89 doses de Coronavac a Serra do Navio, quem foi o primeiro a levantar o braço na direção da agulha? Adivinhou: o ator de westerns amapaense, antes dos médicos, antes dos enfermeiros, antes dos idosos, etc.

"Como secretário de Saúde, reúno-me com médicos, logo estou na linha de frente", justificou Scoot, o mesmo que em outubro escreveu que "o doente mental [Doria] quer obrigar o povo a usar a vacina chinesa, já não basta a porra deste vírus chinês?".

Scoot tem poder. E essa é a prioridade na vacinação: o poder e o dinheiro.

Enquanto na União Europeia, no Reino Unido e até nos Estados Unidos nem se questiona a distribuição gratuita da vacina pelo Estado, clínicas privadas do Brasil tentam comprar doses na Índia para distribuir por funcionários, parentes, clientes, enfim, pela sua casta. É um comportamento da família do comentário de um yuppie brasileiro que em maio sentenciou, aliviado, que "o pico da doença nas classes altas já passou...". E é um comportamento que não nos deixa esquecer que, em pleno século XXI, o país continua dividido entre Casa Grande e Senzala na cabeça das suas "classes altas", as mais bregas do mundo, diga-se de passagem.

Em Manaus, onde doentes morrem asfixiados por falta de respiradores, duas médicas recém-formadas, filhas de um empresário milionário, foram vacinadas antes dos seus pares que andam há meses nas urgências dos hospitais, informa a TV Globo. "É que mesmo trabalhando com vacinas limitadas, não foram estabelecidas prioridades, é uma confusão, no Amazonas e no Brasil todo", justificou uma procuradora de justiça local.

O prefeito de Candiba, na Bahia, criticado por ter sido o primeiro vacinado na localidade que administra, parece dar razão a essa confusão nascida no âmago do Ministério da Saúde, hoje nas mãos de um general, literalmente, paraquedista. "Não recebemos nenhuma orientação, então achei que sendo vacinado estava encorajando as pessoas."

Em Jupi, Pernambuco, os 300 médicos na linha da frente da cidade precisavam de 600 doses. Chegaram 68. Sobram 66, porque os dois primeiros vacinados foram a secretária da Saúde local, num momento registado com pompa em fotografia, e o autor da dita foto, o fotógrafo oficial da prefeitura, que aproveitou "o embalo", segundo o próprio, mesmo não sendo nem médico, nem enfermeiro, nem doente, nem idoso, só um oportunista egoísta.

Mas chega de exemplos de oportunismo, de egoísmo, de ganância, de falta de empatia, de défice civilizacional. Falemos de amor.

Assis Silva Filho, secretário de Saúde de Pires do Rio, no Goiás, na posse das vacinas pelas quais tantos concidadãos ansiavam desesperadamente, não hesitou: doou a primeira, como se de um ramo de rosas se tratasse, à (saudável) mulher. "No intuito apenas de resguardar a vida da mulher da minha vida", justificou, abraçado por ela, em discurso comovido, antes de ser demitido pelo ato.

Começamos com westerns, terminamos com uma comédia romântica.


Correspondente em São Paulo

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