Porque foi o Facebook e a Google quem ganhou a guerra com a Austrália*

*E ainda resta saber se a imprensa de facto saiu a ganhar disto tudo. Pelo menos, o público australiano tem os seus habituais serviços online de volta.

O governo australiano conseguiu. Vergou os gigantes da internet americanos e obrigou-os a pagar pelos conteúdos dos jornais e outros órgãos de comunicação social que circulam nas suas plataformas. Foi uma grande vitória, não exatamente da classe operária, mas, pelo menos em nome, das depauperadas redações que vão sobrevivendo -- por vezes nem se percebe bem como -- no meio de uma revolução comunicacional que parece dar dinheiro a toda a gente menos a quem faz notícias.

Lendo a maioria das notícias publicadas por todo o mundo nos últimos três dias, foi sem dúvida uma tal vitória que aconteceu. Até o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, veio publicamente pedir desculpa aos australianos, assumindo o erro de os ter privado durante alguns dias de conteúdos noticiosos, ao ter impedido (durante o braço de ferro com o governo) a partilha de quaisquer links provenientes de órgãos de comunicação social.

Antes, (para quem não acompanhou nada disto) a Google tinha mesmo ameaçado simplesmente sair da Austrália. Em causa estava um anunciado projeto de lei que visava obrigar os gigantes da internet (leia-se, G e FB) a pagar por todos os conteúdos informativos que passem pelas suas plataformas.

Ultrapassadas as birras, a lei lá foi aprovada na quarta-feira. E o que é que ficou na versão final? Uma coisa que, simplesmente, não se aplica nem à Google nem ao Facebook.

Diga o que disser a propaganda do governo australiano, a realidade é que a lei aprovada simplesmente isenta a Google e o Facebook da aplicação das normas agora em vigor se estes demonstrarem ter negociado, a título privado, com as empresas de comunicação social contrapartidas financeiras consideradas satisfatórias, como noticia a Business Insider.

Foi este o compromisso conseguido do lado do executivo australiano.

O que, na minha opinião, não tem nada de mal à partida. Exceto quando...

Ainda segundo o Insider, o Facebook está em negociações com os maiores grupos de media para encontrar uma forma de pagamento.

O que deixará os mais pequenos -- e vulneráveis -- editores simplesmente a arder. Ou talvez não... Viremos a saber? (Já cá volto.)

Também a Google já tinha negociado financiamento com os maiores publishers (incluindo o grupo de Rupert Murdoch, como aqui escrevi na semana passada). Entretanto já houve acordos com 50 publicações, o que é um avanço interessante, resta saber se tal é suficiente....

Isto porque tanto Google como Facebook têm já há vários anos -- em especial para a comunicação social em língua inglesa, mas não só (existe investimento deste tipo em Portugal) -- projetos de investimento nos media. O valor investido é muito, é pouco? Depende com certeza a quem se pergunte. Mas ele existe e é anual. E há vários projetos de media (incluindo, repito, em Portugal), que só existem porque tiveram esse apoio destes gigantes da internet.

O que esta lei australiana acaba por fazer, relativamente pelo menos à G e ao FB, é deixar tudo mais ou menos na mesma. Uma vez que as negociações com as empresas de media serão feitas à porta fechada e o governo -- ou o tribunal arbitral para o efeito -- só terá acesso aos números finais, corre-se o risco real (e muito provável) de eles simplesmente irem pagar o dinheiro que, de qualquer forma, já iriam gastar.

Nem sou eu que o digo primeiro. É o professor de Estudos de Internet da Universidade de Curtin Tama Leaver, quem o afirmou à ABC. Mas é tão evidente!

Resta uma esperança, ainda que tão fugaz quanto o sonho de uma formiga que olha uma andorinha e deseja partir com ela para uma terra mais quente na primavera. Que o governo australiano seja capaz de agir a tempo e eficazmente se e quando os pequenos editores, os regionais ou os que ainda fazem jornalismo independente, sem medo de afrontar o poder político ou económico, se virem a ficar de fora das negociações.

Mas a estas formigas trabalhadoras, normalmente, mais não lhes resta do que a ameaça de uma bota.

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