Política de sofá

Recep Tayyip Erdogan entra na sala com Charles Michel à sua direita e Ursula von der Leyen à sua esquerda. Quando se aproximam dos lugares, Erdogan dirige-se ao seu, uma poltrona dourada, e Michel não hesita em sentar-se na outra, à direita do presidente turco. Von der Leyen fica de pé, imóvel, solta um "ah" entre o espantado e o ofendido, até que se senta no lugar que lhe tinha sido reservado, no sofá, à direita e longe de Erdogan. O que aconteceu depois, durante a reunião, tornou-se irrelevante. Para a história ficou o sofagate.

O argumento do machismo é uma distração. Por uma vez, as feministas que se queixam de homens que abrem a porta ou cedem a cadeira teriam razão em protestar. Ursula von der Leyen não está ali enquanto mulher. O seu lugar é o que protocolarmente cabe a quem preside à Comissão. E é, no caso, depois de Charles Michel. O problema também não é Michel ter-se sentado, não ter cedido o lugar ou exigido que viesse outra poltrona. O episódio foi uma provocação intencional. Se Ursula se tivesse ido embora ou Michel ficado de pé o passo seguinte teria sido abortar a missão a Ancara e voar para casa. Podiam fazê-lo, mas seria manifestamente conflituoso e excessivo.

As críticas a Michel, mesmo que justificadas, têm uma explicação muito própria. Na distribuição de lugares em julho de 2019, os socialistas ficaram com a presidência do parlamento por meio mandato e com uma vice-presidência da Comissão e a chefia da política externa pelo tempo todo. Os liberais, liderados por Macron, conquistaram a presidência do Conselho, um lugar que tem sido mais relevante. Foi isso que os socialistas europeus perceberam quase dois anos depois. Agora querem o seu lugar. Pode ser legítimo, mas o pretexto esconde o que importa no que aconteceu em Ancara.

Já houve um tempo em que os vizinhos da União Europeia queriam ter boas relações com a Europa e mostrar deferência para com a Comissão, que é quem entrega dinheiro, negoceia acordos comerciais e eventualmente a adesão, com faz de conta que é o caso da Turquia. Já houve um tempo em que isso era o mais importante.

A Turquia quis ostensivamente mostrar à Comissão Europeia qual era o seu lugar, secundário; com quem negociava, com os governos; e quem mandava nas relações, Bruxelas não, certamente. Porquê?

Na crise dos refugiados, a Europa entregou à Turquia a defesa das suas fronteiras; nas negociações sobre a suposta adesão turca, Bruxelas deu a Erdogan o pretexto de que precisava para derrotar os militares e governar sem controlo. Em ambos os casos, é evidente quem saiu a ganhar.

O que aconteceu a Ursula em Ancara, tal como a humilhação que Josep Borrell sofreu em Moscovo, tem uma explicação simples. Os vizinhos hostis da Europa não a respeitam, não a temem e, mais importante, sabem que ela não se entende. A política externa da União Europeia são tratados comerciais e subsídios ao desenvolvimento. É importante, mas não é decisivo. O resto são sobretudo interesses divergentes de que ninguém abdica nem concerta.

Se a bolha europeia aproveitar os lugares em poltronas para discutir o machismo na política e os lugares nas instituições, deixará passar o que verdadeiramente importa no que aconteceu no palácio presidencial em Ancara. Michel não foi pouco cavalheiro, foi, quando muito, hesitante. E a Turquia não ofendeu uma senhora, destratou a Comissão Europeia. O importante é porquê.

Consultor em assuntos europeus

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