Perdi um amigo

Inevitável que escreva sobre a morte do Jorge Coelho. Ao correr da pena, um texto mais pessoal, ainda no meio da devastação desta perda súbita.

Na política há amizades. Há poucas, mas há amizades. Isso é o que eu penso e sinto. Mas para o Jorge as coisas eram bem diferentes. O Jorge tinha mesmo muitos amigos, posso testemunhar.

Ele deu tudo ao seu país, ao seu interior, à sua terra, à sua família e aos seus amigos. E deu sem pedir em troca. Na verdade, sempre senti, nestes vários anos em que se tornou meu amigo e conselheiro, que a única coisa que reclamava em troca era o bem que via que os seus conselhos faziam aos que lhe eram próximos e ao país. Enchia-se apenas com a satisfação do bem comum e dos seus amigos. E por isso posso dizer que foi meu amigo.

Passava as horas que fosse preciso a ouvir e a falar, que ele bem sabia que a atividade de um governante é solitária e não se pode falar com muitos sobre as dificuldades de cada dia, de cada decisão. Por isso não regateava uma palavra de encorajamento.

Foram assim os últimos anos, até ao papel marcante que teve na minha candidatura ao Parlamento Europeu, onde uma vez mais o ouvi uma e outra vez.

Mas a minha história com o Jorge, de que quero aqui deixar testemunho, vem lá muito de trás, do tempo em que, como outros jovens socialistas, o via ser central na razão e no coração de António Guterres. O Jorge Coelho foi mesmo um cimento do PS nesses tempos, em que era ele a dar o peito às balas, a dizer o que era mais duro, para proteger, como era próprio, o primeiro-ministro (sim, se era preciso elevar a voz ou rechaçar um ataque mais duro, não se escondia; era ele que oferecia a face, empenhava o seu capital político para defender o PS e o governo).

E foi por isso apenas natural (embora para alguns surpreendente) que nos tenha dado o exemplo de abnegação maior quando assumiu as responsabilidades políticas de imediato aquando da tragédia de Entre-os-Rios.

A partir daí, nas muitas lutas que travou, nunca deixou de ser a mesma pessoa, o mesmo político. E o amor ao PS e à luta política nunca mudou.

Vimo-lo, por isso, muito naturalmente, tempos depois, nas grandes lutas do PS.
O Jorge nunca deixava de galvanizar o partido, em cada momento, em cada comício, como o fez na sua terra, em Mangualde, num momento histórico do arranque da campanha das eleições europeias. Nunca lhe agradeci e já não agradecerei o suficiente por esse momento.

Nos últimos anos, marcou pelo comentário político sempre sagaz e informado. Muitos o tentaram para o regresso à atividade política na primeira linha. Escolheu continuar a marcar os nossos destinos até ontem da forma que os mais próximos bem sentiam, com a sua palavra, as suas sugestões. Mas também numa luta que encetou a bem do interior do país, pela sua terra, com ideias e projetos marcantes, que ajudaram a projetar ainda mais Mangualde e o distrito de Viseu.

Num campo mais pessoal, recordo conselhos importantes, decisivos, que guardarei para mim. Recordo o homem bem-humorado, as gargalhadas, o contador de histórias extraordinário, com memória incrível, que nos trazia a história da democracia e do PS a cada conversa, a cada momento mais pessoal. Essas histórias, esses momentos de partilha, eram sempre momentos de aprendizagem para todos nós, em particular os mais novos que com ele puderam privar.

Deixa uma família em dor, e deixa os amigos e camaradas do PS órfãos do verdadeiro socialista.

Que esta pandemia acabe, e nos tirem estes estribos, para que possamos homenagear o Jorge como queremos e como ele merece.

Até sempre Jorge. Esse sorriso, essa voz, esse punho levantado bem alto, ficam guardados para sempre.

Eurodeputado

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