Pequenas vitórias, grandes derrotas

De underdog a vencedor da noite, de patinho feio das sondagens a novo kingmaker do seu partido, a inesperada vitória de Carlos Moedas tem muito que se lhe diga. A coligação do ex-comissário europeu teve poucos mais votos do que Cristas e Leal Coelho juntas contra Medina - mais 2843, para ser rigoroso, enquanto o incumbente socialista viu o seu score descer a astronómica quantia de 25 mil votos. É, portanto, uma derrota muito maior de Fernando Medina do que uma vitória da direita em Lisboa, por mais simbólico que seja o PSD vencer a capital e capaz que Moedas seja como político. A contabilidade, claro, conta para os contabilistas, mas uma verdadeira análise não a dispensa.

Indo à política pura e dura, duas notas: Carlos Moedas terminou o seu discurso de vitória agradecendo aos seus conselheiros mais próximos durante os últimos sete meses. Foram eles: Miguel Morgado, figura central do passismo, Sofia Galvão, vice-presidente no passismo, António Valle, diretor de comunicação de Passos na oposição, e António Leitão Amaro, secretário de Estado de Passos no governo. O único fora de molde era Morais Sarmento. O triunfo lisboeta não se trata, por isso, de uma vitória do "rioísmo", mas antes de uma vitória da estratégia escolhida por Moedas - uma grã-coligação de direita sem o Chega e dos seus próximos. E próximo de Rio o novo príncipe do PSD não é.

Como é que Carlos Moedas gerirá este seu novo poder de condicionar o futuro do seu partido e, assim, a vida política nacional, é uma questão fulcral para entender o que daqui virá. As tropas de Luís Montenegro saíram fragilizadas da contagem de domingo passado, com Caldas da Rainha, Batalha e Espinho a saírem de mãos de aliados seus. Os sucessos da direção de Rio no distrito de Braga, onde o PSD possui agora nove em 14 câmaras, fortalecem uma recandidatura do atual líder, em particular graças a Barcelos, onde a militância laranja é vasta e, com esta reconquista, animada. Regionalmente, há razões para preocupação a sul, onde Monchique e Vila Real de Santo António foram perdidas pelo PSD, oferecendo menos relevância à sua representação no Algarve.

Olhando para o restante mapa do país, o partido instalou-se com mérito no Alentejo, tomando Portalegre e mais cinco novos municípios, conseguindo uma dezena de concelhos numa região onde o PS se vinha tornando maioritário e André Ventura ambicioso. Talvez o maior feito de Rio neste ato eleitoral tenha sido conter, ainda que moderadamente, a sangria do seu eleitorado de centro-direita para outros partidos que não o PSD, tendo a Iniciativa Liberal sido a maior vítima disso mesmo. O Chega alcançou a marca dos 19 vereadores com meros dois anos de existência, tendo quatro vezes o número de votos do PAN e mais 70 mil do que o Bloco de Esquerda nestas suas primeiras eleições locais. No Ribatejo, improvável bastião de Ventura, elegeu em quatro câmaras e o PSD dependerá da sua aprovação para passar orçamentos em Santarém.

As quatro capitais de distrito conseguidas pelo PSD, a importância de Lisboa, o resultado aceitável de Vladimiro Feliz no Porto, a penetração em Évora e Portalegre, assim como os sucessos insulares, criaram uma sensação de mudança de ciclo. Atendendo à densidade populacional de algumas das 16 vitórias de Rio, contudo, não é bem assim. Horta: 4033 votos; Santa Cruz da Graciosa: 1594 votos; São Roque do Pico: 1381 votos; Reguengos de Monsaraz: 2502 votos; Vila Viçosa: 2213 votos; Redondo: 1527 votos; Mourão: 473 votos; Alter do Chão: 856 votos; Portalegre: 4993 votos. Para virar o país, está longe de chegar. Se é que, com Rio, alguma vez chegará.

Colunista

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