Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021). Otelos

Um célebre filósofo espanhol escreveu que "um herói é alguém que quer ser ele próprio". No caso de Otelo Saraiva de Carvalho, nascido em 1936, falecido no passado domingo e cremado com honras militares mas não de Estado, a questão é: mas qual dos próprios? O Otelo que foi libertador de um país algemado a um regime ditatorial? Ou o Otelo que se insurgiu clandestinamente contra o regime democrático que se seguiu, já em período de normalidade constitucional? O Otelo apregoador da democracia direta ou o Otelo que clamava a necessidade de "um homem com a inteligência e a honestidade" de Salazar? O Otelo cuja performance operacional na madrugada de 25 de Abril é ainda estudada nas escolas de infantaria? Ou o Otelo que, mesmo acreditando na sua versão, se deixou rodear por gente que assassinou funcionários do Estado e uma criança? O Otelo que a justiça decidiu condenar, mas nunca por crimes de sangue, ou o Otelo que a política preferiu perdoar, mesmo que sem as unanimidades que a vida e a morte nunca permitiriam?

Os contrassensos do ser humano obrigam a uma tolerância, mas não se isentam de limites. Há negrumes demasiado negros para se concederem zonas cinzentas, até para aqueles que mais luzes possam ter gozado ou proporcionado. Nunca convivi com Otelo Saraiva de Carvalho nem com o tempo que este influenciou por via política, militar ou terrorista. Gozo das liberdades que o Movimento das Forças Armadas trouxe, nascidas da operação por si concebida, e não o esqueço. Para o decifrar de forma justa, fiz o que me foi possível: li-o. E a questão, por mais paixões que, vivo ou defunto, provoque, prossegue a mesma: qual dos Otelos era Otelo?

O Otelo dono de uma clarividência cristalina, que, em entrevista ao Expresso em 1976, aponta como "desejável" um total apartidarismo das Forças Armadas ou o Otelo que, através do seu Projeto Global, fundiu uma força política (a FUP) com um grupo de ação armada paramilitar (as FP-25)?

"Quando uma companhia é manipulada por elementos da extrema-esquerda, que a levam em determinada direção ideológica, quando essa mesma companhia vai proteger um comício do CDS, que é marcadamente de feição ideológica de direita, esses soldados a priori estão mais do lado dos manifestantes que do lado daqueles que têm de defender", preocupava-se Otelo, durante o PREC, ao mesmo tempo que admitia a ocorrência de detenções sem culpa formada porque, dizia, elas se verificavam "sempre com base em informações muito concretas".

Lendo outra entrevista sua, à revista Tilt, em dezembro de 1974, a preocupação com o ambiente de violência que se vivia transparece, além de uma admiração por Marilyn Monroe. Dizia Otelo, no primeiro Natal da Terceira República: "O MFA pretende uma democracia pluralista, em que haja a possibilidade de os diversos partidos políticos, num leque muito amplo, exprimirem livremente a sua opinião."

"O MRPP - ou outro partido qualquer - só é inimigo do MFA quando por meio de ações violentas atenta contra a ordem e a disciplina", introduzia, em tom de advertência. "Claro que se não for empregue violência, melhor, perfeito! Agora, a partir do momento - como por exemplo o caso do CDS, no Teatro São Luiz - em que os partidos de esquerda empregaram meios violentos para fazer prevalecer as suas opiniões, haverá realmente um choque com a ordem estabelecida. O MRPP, nesse momento, torna-se um inimigo e não é com certeza nosso aliado [do MFA]", deixava Otelo bem claro, em defesa de um partido, à data, repetidamente desvalorizado como "fascista".

Mais uma vez aí nos deparamos com frases que chocam frontalmente com o seu percurso na década de 1980. "Não é arrasando, para depois se construir alguma coisa de novo, mas aproveitando aquilo que está feito" que se levava a democracia para a frente, considerava em 1974.

Quando, na mesma conversa, lhe perguntam o que é "verdadeiramente a reação", desata a rir. "Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! A reação é tudo aquilo que vai contra alguma coisa que esteja estabelecida", afirmava ele, que mais tarde seria contra a democracia constitucional já estabelecida. Lucidamente, ainda no ano da revolução, dizia: "Horroriza-me tudo o que seja falta de ordem e disciplina. Os partidos da extrema-esquerda também são, infelizmente, nossos inimigos. Não talvez ideologicamente, mas porque sendo antiordem e antidisciplina são contra a atuação regular do MFA e ajudam, portanto, a reação, que não está interessada na instauração da democracia." No ano seguinte, todavia, já depois de visitar Cuba, declara ao Jornal Novo, que "a autoridade não contradiz a dinâmica da revolução". Era só Otelo que contradizia Otelo.

Costa Gomes, que com ele conviveu de perto, recordava essa inconsistência de forma visual. Basta também ouvi-lo. "Várias vezes, no Conselho da Revolução, quando se discutiam alguns problemas, ele tirava as estrelas e atirava-as para cima da mesa, dizendo: "Eu não mereço estas estrelas, arranjem outro." Era, de facto, bastante instável, mudando com facilidade. Se, numa discussão, alguém apresentava argumentos suficientemente fortes, dizendo que ele não tinha razão, mudava de opinião com grande facilidade. O que lhe faltou foi a estabilidade de pensamento e uma linha política coerente." Sobre nudismo, é certo, não mudou de ideias. À Tilt dizia que o nu, "o ser humano nu, não tem assim nada de chocante". Em 2001, mantinha a opinião e protagonizou um episódio erótico do programa Sex Appeal, com Julie Sargeant.

O gosto pela arte representativa, no qual tinha antecedentes familiares, é, aliás, ancestral. Otelo foi chefe da secção de teatro da Mocidade Portuguesa no seu liceu, em Lourenço Marques, hoje Maputo, e promotor da primeira vez que se fez teatro na Academia Militar.

Numa entrevista mais recente, em 1998, feita por um ainda jovem João Taborda da Gama para a Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, revela pormenores como o seu voto autárquico em Isaltino Morais e as suas reuniões com ditadores entretanto desaparecidos, como Saddam Hussein e Muammar Kadhafi, ambos financiadores do seu partido, a FUP, mais tarde ilegalizado. Nessa conversa, apesar de se distanciar das FP-25, relativiza as suas ações: "Aquilo não é terrorismo. Para haver terrorismo é preciso que a generalidade dos cidadãos tenha medo. Não é terrorismo de espécie nenhuma", vaticinaria. As famílias das vítimas certamente discordarão, e não estarão sozinhas nessa discórdia.

Fernanda Câncio, jornalista deste diário, escrevia há dias no Twitter que "não é o regime democrático que está a trair o 25 de Abril ao recusar luto nacional a Otelo", mas que "foi ele que escolheu trair o 25 de Abril e o regime democrático ao atentar contra a vontade do povo expressa livremente nas urnas". É justamente isso que sinto.

Colunista

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