Os terroristas não ganharam, mas o Ocidente pode perder

A retirada americana de Cabul e a subsequente tomada de posse do novo governo talibã, exatamente 20 anos depois dos ataques de 11 de Setembro, sugere que no fim perdemos esta guerra.

Há, de facto, derrotas e transformações nada positivas. A forma como os americanos saíram do Afeganistão é uma vitória para os talibãs; a tomada de decisão, quase sem coordenar com os aliados, alterou a discussão europeia sobre a relação com os Estados Unidos e sobre a nossa própria segurança estimulando a ideia de autonomia estratégica, um conceito de definição imprecisa e não consensual; e o mundo acordou a achar que os americanos estão em retirada enquanto outros, em especial a China, expandem. Tudo isto é verdade, mas não será o balanço da resposta ao 11 de Setembro.

Em 2002, em reportagem em Nova Iorque, conheci uns portugueses que viviam num terceiro andar no centro de Manhattan. Tinham posto na varanda uma mochila com uma corda, caso fosse necessário fugir de um qualquer ataque que impedisse de usar as escadas.

De todas as imagens do 11 de Setembro, talvez as dos corpos em queda das torres do World Trade Center tenham sido as mais impressionantes. Ou, pelo menos, as que melhor exibiram a inesperada vulnerabilidade e impotência de quem tinha acabado de ganhar uma longa guerra e declarado a superioridade definitiva do seu modelo político e social. Essa foi a grande transformação que o 11 de Setembro trouxe. Numa manhã, passámos do Fim da História, de Fukuyama, ao Choque de Civilizações, de Huntington. Nem uma nem outra leitura superficial de qualquer um deles era correta, mas a perceção foi essa.

O 11 de Setembro inaugurou uma era de medo. A ameaça de destruição mútua fazia parte dos temores da Guerra Fria, mas era, ao mesmo tempo, a sua definição e improvável. Após a queda do Muro, o Ocidente acreditou tanto na sua superioridade que até pensava que se a China experimentasse um pouco de mercado acabaria por se democratizar e converter ao capitalismo. O apelo do ideal ocidental parecia imbatível. A 11 de Setembro, percebemos que tinha inimigos com capacidade para nos atacar. Passámos do otimismo dos vencedores ao pessimismo dos aterrorizados.

A resposta ao 11 de Setembro, não só a militar, teve sucesso no que era mais importante. A ameaça terrorista, que naqueles dias parecia impossível de vencer, foi domada. Não desapareceu, mas não tomou conta de nós. A História, porém, continuou sem acabar.

Passados 20 anos, a ideia de Ocidente tem ainda inimigos externos e internos. A relação com a China ameaça ser muito mais confrontacional do que se tinha pensado. Há competição entre modelos e crescente tensão de conteúdo militar. Internamente, parece difícil ser otimista quando se olha o mundo pela lente das alterações climáticas, da ascensão da China, da crise financeira de 2008, da agressividade da Rússia, da perda de perspetivas de crescimento permanente, do retrocesso democrático, da pandemia. A que acresce um discurso que culpa o Ocidente, a casa dos direitos humanos e das liberdades, de todos os males que aqui são residuais por comparação com o resto do mundo.

Passados vinte anos, o que falhou não foi a guerra aos terroristas, que teve algum sucesso, ainda que circunscrito no tempo e na espetacularidade e perfeitamente reversível. Hoje, o que está em crise é a convicção nas virtudes do modelo Ocidental e nas razões para o defender. E essa causa não é promovida pelo afastamento entre americanos e europeus, nem pelo silêncio dos moderados, deixando o espaço público e político ocupado por quem não acredita nas maiores qualidades das democracias liberais, a começar pela forma como lidamos com as diferenças e gerimos as divergências.

Consultor em assuntos europeus

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