Os sino-cínicos europeus

As últimas semanas demonstraram que Trump era apenas uma boa desculpa para os europeus não se alinharem com os Estados Unidos em relação à China.

O tom e os modos do ex-presidente americano justificavam a distância dos aliados, que eram publicamente tratados como inimigos.
A eleição de Biden, que anuncia o regresso da América ao mundo, sugeria que os europeus o recebessem com mais alinhamento. Cautelosos e desconfiados, mas satisfeitos pelo regresso do aliado. E, sobretudo, sem dúvidas sobre de que lado estão. Não é exatamente isso que está a acontecer.

Quando Xi Jinping foi à versão virtual de Davos dizer que "reverter a globalização" ou o "isolacionismo arrogante" não terão sucesso, em reposta ao tom de Biden e ao seu buy American, fazer uma profissão de fé na "paz, desenvolvimento, equidade, justiça e democracia", e defender que "os fortes não devem fazer bullying aos mais fracos", os líderes europeus abanaram a cabeça mais ou menos afirmativamente.

No mesmo ciberfórum, Merkel disse que não concordaria com uma visão do mundo em que se dissesse "aqui estão os Estados Unidos, ali está a China e nós ou estamos com uns ou estamos com os outros".

Poucos dias depois, Macron disse mais ou menos a mesma coisa a um think tank americano. "Uma situação de todos contra a China seria um cenário de máxima conflitualidade que, para mim, é contraprodutivo."

Há três maneiras de olhar para o que os dois líderes europeus dizem e pensam sobre a China. Ou são ingénuos, porque acreditam que pode haver três lados; ou são ignorantes, porque acham que as ambições chinesas são meramente económicas; ou são oportunistas, porque sabem que vender à China é um bom negócio, e em tempo de crise é isso que lhes importa.

A ideia de que a China tem apenas ambições económicas e procura aliados no mundo para aceder a matérias-primas é uma ilusão que já não resiste às evidências.

A notícia recente de que a China quer organizar rapidamente uma cimeira virtual dos 17+1 (um grupo de países da Europa Central e de Leste que se reúne em colaboração com a China e que inclui, entre outros, vários membros da União Europeia: Bulgária, República Checa, Estónia, Eslováquia, Grécia, Hungria, Letónia, Lituânia, Polónia e Roménia) serve para recordar que Pequim entrou em modo diplomático muito mais agressivo quando a pandemia começou e intensificou esses esforços com a eleição de Biden.

A relação do Ocidente com a China não pode nem deve ser semelhante à relação com a União Soviética no tempo da Guerra Fria. Por um lado, quase não havia relações económicas relevantes entre os dois lados; por outro, embora os soviéticos tenham tentado evangelizar o Ocidente com a ajuda de uns lunáticos, uns bem-intencionados e muitos antidemocráticos, do lado de cá havia óbvia vantagem económica e liberdade. As coisas, agora, são diferentes.

A integração económica global não se vai desfazer e a China, em vez de alimentar partidos e disseminar uma ideologia, quer financiar governos e condicionar países no Ocidente. O que já tem feito, impondo sanções aos seus críticos nos países com governos amigos.

Apesar das reações iniciais, num tempo em que a sobrevivência é sentida como muito mais urgente do que a economia ou a liberdade, o risco de haver no Ocidente quem olhe para o modelo chinês e o ache exemplar existe de facto. Ter líderes que acham que tudo não passa de contas de deve e haver não é estratégia nem ambição, é mercearia.

Consultor em assuntos europeus

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