Os sinais agridoces no discurso de Von der Leyen

O discurso do Estado da União de Ursula von der Leyen, na semana passada, teve muitos aspetos positivos, como as políticas de saúde e a ambição no digital, mas também zonas cinzentas, em especial sobre a política europeia para a ciência e a inovação.

Claramente positiva foi a mensagem sobre a visão europeia para a saúde. Desde logo o balanço da luta contra a pandemia de covid-19. O facto de a União Europeia ter ultrapassado o marco de 70% da população vacinada, de ter liderado este processo tanto internamente como globalmente, distribuindo 700 milhões de vacinas aos seus cidadãos e enviando um número superior destas para outros 130 países, assumindo ainda novos compromissos para a cooperação, é sem margem para dúvidas, e como disse a presidente da Comissão Europeia, um exemplo do "espírito" europeu que construímos. A batalha contra a pandemia é global - só assim poderá ser vencida - e a UE está a liderá-la pelo exemplo.

Ainda na frente da saúde, gostei particularmente de ouvir Von der Leyen reafirmar compromissos para o futuro, concretamente sobre a nova autoridade europeia (HERA) e a adoção de uma Estratégia Europeia para os Cuidadores, os quais tiveram um papel decisivo na resposta à pandemia. Ambas as medidas pelas quais me venho batendo há bastante tempo.

Num tema que cruza saúde, segurança e direitos fundamentais, foi igualmente muito relevante o compromisso para a criação de um novo quadro legislativo europeu sobre a violência contra as mulheres. Este é um sinal que não pode deixar de ser dado, face a indicadores muito negativos que vamos recebendo de alguns dos nossos vizinhos, mas também devido à persistência de problemas graves dentro das nossas fronteiras. Nomeadamente em Portugal, onde a violência doméstica continua a ser um fenómeno grave, que nos entra todos os dias pela casa dentro através das notícias.

O segundo capítulo muito importante da intervenção de Von der Leyen foi aquele em que abordou tudo o que diz respeito ao digital e à inovação tecnológica. A digitalização, com o 5G, com a fibra, mas também com a prioridade às competências digitais. E a ambição, por muitos considerada irrealista, mas a meu ver essencial, de recuperar capacidade industrial europeia nestes domínios, em especial na produção de microprocessadores, que poderá reduzir a nossa dependência dos mercados asiáticos.

Infelizmente ficou-se por aqui a mensagem da presidente da Comissão sobre políticas para a ciência e a inovação. Por exemplo, sobre a ciência fundamental, de importância decisiva para o futuro da Europa, como se viu pela capacidade científica que nos trouxe no combate a esta pandemia, não lhe ouvi uma única palavra. E isso é preocupante a vários níveis. Por sugerir que o tema poderá não ser tão relevante para a Comissão Europeia como esta tem vindo a afirmar. E por abrir até margem para especulação de que poderá vir a ser sacrificado face a outras prioridades consideradas mais imediatas.

No seu discurso Von der Leyen anunciou vários investimentos para os quais será necessário libertar fundos, porque nesta altura os orçamentos e programas da União estão essencialmente fechados. Esperemos que não surja a tentação de os ir buscar à ciência.

Sobre o Afeganistão, pelo contrário, mais do que o anúncio do reforço de verbas para a cooperação que não sabemos bem a quem serão entregues - seguramente não aos talibãs -, esperava-se um posicionamento claro da União Europeia.

Eurodeputada

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