Os senhores decidam-se

1.º Apesar de não usufruírem da excitação oferecida a André Ventura, os restantes partidos recém-eleitos enfrentam desafios igualmente pertinentes. Veja-se a nova porta-voz do PAN, Inês Sousa Real, a anunciar a vontade de integrar um executivo, contrariando abertamente a mensagem de despedida do seu antecessor, que olha para o partido como uma força somente parlamentar, e não governativa. Encare-se com bonomia o idealismo bacoco que saiu desse congresso, propondo sair da NATO, sabe Deus para onde, e na semana seguinte atacar ferozmente a Federação Russa e a Câmara de Lisboa pelo caso que envolveu ambas. Quem combate mais Putin do que a NATO? Bifes de seitan?

2.º A incoerência, contudo, não se resume aos nossos amigáveis animalistas e respetiva ementa. A ausência de estrutura doutrinária, os orçamentos ainda modestos, que obrigam a equipas mais pequenas, e o inferno de estarem sujeitos à rara ocasião de serem notícia não são um exclusivo do PAN. O arraial do Iniciativa Liberal foi idêntica consequência do mesmo. Contrariando uma DGS que se contraria a si própria, o IL anunciou "Libertar Lisboa" a dias de Lisboa sofrer uma cerca sanitária por aumento de casos. Se a celebração de Santo António já incorria na ironia de utilizar um frade como motivo para bebedeira, os liberais foram mais longe e usaram um direito político como desculpa para tiro ao alvo. As fotografias do amontoado sem máscara, com mais ou menos vacinas, foram uma machadada na imagem do IL. Os gerentes de restaurantes das redondezas, que anseiam por finalmente fechar à uma, e não às 10 e meia da noite, não devem ter ficado propriamente fãs dos nossos supostos defensores do setor privado. É pena. Os alvos do dito tiro serem compostos por políticos do PSD e do PS concederam-lhe uma aura antissistema, mais próxima do Chega do que das forças democráticas e fundadoras do regime. E isso também é pena. E grave.

3.º No que toca a desencontros e desentendimentos, a saga do Partido Socialista no Porto merece a menção honrosa da semana. De Pizarro para Barbosa Ribeiro, de Carneiro para secretário de Estado anónimo e de anónimo de volta a Ribeiro, a liderança do PS estoirou o processo autárquico na Invicta com original empenho. É a cidade mais relevante do país, excetuando o enjoo lisboeta, e António Costa lavou as mãos em sabão de negligência. Rui Moreira, um azarado com sorte, enfrenta dois ex-colaboradores: Vladimiro Feliz, que já foi seu apoiante, e Barbosa Ribeiro, fundamental nos anos em que Moreira precisou do PS para compor maioria camarária.

Portugal, no que toca a política local, prossegue único na sua habilidade em conciliar comédia e repetição.

4.º Para terminar nesse tom, os galhardetes entre primeiro-ministro e Presidente da República atingiram picos de teatralidade. O Presidente faz de primeiro-ministro, tendo sido pai do estado de emergência, batizou-se agora padrinho do desconfinamento. E Costa, fazendo de Presidente, trava os ímpetos governamentais de Marcelo, desautorizando a autoridade que já nenhum deles tem. No fim, anuncia-se uma cerca sanitária que vai de Mafra a Setúbal, cercando apenas pedestres e automobilistas sem GPS ou dados móveis no telemóvel. Parabéns à prima. O primo tem covid ou encontra-se num estádio estrangeiro, patrioticamente assistindo à bola.

Colunista.

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