Os putos e os unicórnios

Os unicórnios são animais imaginários, mitológicos, com corpo de cavalo e um chifre em espiral na testa, característica que lhes dá o nome, composto dos elementos latinos uni- (um) + corne (corno). "Unicórnio" é também nome de uma constelação equatorial e imagens de unicórnios povoavam brasões e ilustrações medievais, por lhes ser atribuído o poder de afastar desgraças e malefícios.

Os imaginários e simpáticos unicórnios estão atualmente em plena expansão, ao contrário de tantas espécies reais. No imaginário infantil e juvenil das novas gerações, os unicórnios têm vindo a conquistar espaço e não surpreende que encontremos imagens de unicórnios brancos e fofinhos, de crinas e caudas coloridas, em peças de vestuário, decorações, balões, bolos, brinquedos e em histórias de encantar. Surpreende, apesar de tudo, ouvir falar na Fábrica de Unicórnios em que o atual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa pretende transformar o Hub Criativo do Beato. Nas palavras de Moedas, "A primeira prioridade é a inovação, é o caminho que tenho feito na vida, trazer inovação para as cidades, a inovação é aquilo que nos traz emprego, que nos traz bem-estar" e, ainda, "A questão não é a palavra unicórnio, a palavra quer dizer apenas que nós queremos ter a ambição em Lisboa, desenvolver grandes empresas começando do zero, e que isso é possível porque Portugal já provou que consegue fazê-lo, que hoje temos unicórnios portugueses e somos um país com uma dimensão relativa em relação ao mundo" [sic] (DN, 10/11/2021). Façanhudo, Moedas fala-nos da fábrica de unicórnios como se, emocionado, contasse a crianças inocentes, nós, as maravilhas e sucessos da sua vida temerária.

Pesquisando no Google, a expressão "fábrica de unicórnios" em português, praticamente todos os resultados se referem às declarações de Moedas; encontramos alguns divergentes, brasileiros, que nos ajudam a compreender o seu discurso. O site Whow! Empreendedorismo para a vida real dá-nos a conhecer, numa das suas páginas, o mapa global das startups unicórnio, contando-nos que "O termo unicórnio passou a ser usado no ecossistema das startups em 2013" e que, desde então, surgem cada vez mais empresas avaliadas em mais de mil milhões de dólares; em outra página, ficamos a saber as diferenças entre as startups unicórnios, zebras, camelos e dragões. O site OASISLAB dá-nos sete lições do país que é uma fábrica de unicórnios, a Suécia, berço das startups Spotify, Kings (criadora dos games Minecraft e Candy Crush), Skype, além da H&M, Volvo, Saab, Electrolux e Ikea, que se tornaram multinacionais há décadas.

O discurso de Moedas é, portanto, uma apropriação do discurso infantilizante da "nova economia" neoliberal, que nos promete um mundo encantado, no qual o mérito atrevido (i.e. esperteza) e a criatividade marota (i.e. violação de princípios e normas de conduta) dos putos (que "parecem bandos de pardais à solta") nos conduzirão a uma vida de riqueza e prosperidade sem fim.

Alexandre Castro Caldas e Joana Rato, no seu livro Neuromitos (Contraponto, 2020, p. 35), salientam o importante efeito da frequência na geração das convicções: se uma notícia for repetida muitas vezes, aumenta a probabilidade de ser encarada como verdade indiscutível e de ficar enraizada. A existência de unicórnios, tal como as "fake news", são ideias que se cristalizam "no imaginário dos cidadãos comuns e passam a ser assumidas como ideais cientificamente comprovadas".
Apetece desejar que a ciência se engane.


Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

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