Os números aos bois

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga as responsabilidades do governo do Brasil na pandemia já apurou que dois ministros da Saúde saíram do governo por discordarem da prescrição de cloroquina, remédio útil para outras doenças, como malária, mas ineficaz no combate à covid-19, conforme pretendia Jair Bolsonaro.

Que chegou a estar em cima da mesa do presidente um decreto para que a bula da cloroquina incluísse a frase "indicada contra a covid-19" e que o governo ignorou a oferta de 70 milhões de vacinas do laboratório Pfizer, a entregar ainda em 2020.

Que Bolsonaro recusou também 46 milhões de vacinas oferecidas pelo Instituto Butantan, laboratório brasileiro que desenvolveu a chinesa Coronavac, hoje responsável pela imunização de cerca de 80% dos brasileiros vacinados, também ainda em 2020.

E que os inquiridos alinhados ao presidente - o atual e o ex-ministro da Saúde, a secretária da Saúde conhecida como Capitã Cloroquina, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros ou o ex-assessor de comunicação - contradisseram-se ao ponto de expor um macabro ministério paralelo da Saúde, frequentado por membros do Gabinete do Ódio, o grupo liderado por um dos filhos presidenciais cujo objetivo é desinformar incautos e difamar rivais.

Mas uma CPI produz relatórios, frases, palavras, letras. E é composta por políticos, por natureza mais interessados na imagem, na retórica, na reeleição. Faltam números.

Faltavam: Pedro Hallal, epidemiologista, professor universitário e coordenador do Epicovid-19, centro de estudos sobre a doença, e Ricardo Mendonça, repórter do jornal Valor, deram contribuições importantes para se saber, ao certo, quanta gente morreu por responsabilidade do presidente do Brasil.

Segundo os cálculos do epidemiologista, ao ignorar as vacinas da Pfizer o governo pode ter matado 14 mil compatriotas. Ao recusar as do Butantan, terá matado 81,5 mil cidadãos. Perto de 100 mil vítimas, portanto, mais do que as produzidas por todos os assassinos do Brasil em 2019 e em 2020 somados.

O repórter, entretanto, dividiu as 5570 cidades do Brasil por percentual de votos em Bolsonaro na segunda volta de 2018: as onde registou menos de 10%, as de 10% a 20% e, assim sucessivamente, até chegar à única onde ultrapassou os 90%. Naquelas em que o presidente teve menos de 10%, há 70 mortes por cada 100 mil habitantes; nas onde somou 50% ou mais, o número supera os 200. Na tal cidade mais bolsonarista de todas, foram 313. Sempre a subir, em escadinha. Quem mora numa cidade onde Bolsonaro goleou, mesmo tendo votado em Haddad, corre três vezes mais risco de morrer de covid-19 do que quem vive em localidades onde ele perdeu com folga.

Conclusão: como exposto por Hallal, a falta de imunizantes mata; como exposto pelo Valor, o negacionismo, pela via dos ataques ao isolamento social e ao uso de máscara, ou do estímulo à ingestão de remédios inúteis e outros curandeirismos, também mata.

Os senadores da CPI estão a dar "os nomes aos bois". Os estudos académicos e as reportagens jornalísticas acrescentam "os números aos bois". Mas, mesmo assim, ainda há gado - 23% dos brasileiros, segundo as últimas sondagens - decidido a votar em Bolsonaro na primeira volta em 2022.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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