Os moderadores

A quem interessa a crise política e eleições antecipadas? Ao país e aos portugueses não é certamente.

Pergunte-se aos mais de 20% de trabalhadores que obteriam o maior aumento de salário mínimo da história, e que chegaria a 40% desde que o PS está no governo. Ou aos pensionistas que, uma vez mais, veriam um aumento extraordinário nas suas pensões. Pergunte-se aos muitos milhares de famílias com crianças pobres que passariam a receber um novo apoio social. Ou aos empresários que, depois da maior crise do último século, esperavam recuperar com o crescimento económico histórico que se previa para o próximo ano e com o incentivo ao investimento e emprego do PRR.

Com a reprovação do Orçamento e previsíveis eleições antecipadas, tudo isso fica em risco. Não é, portanto, às pessoas que a crise convém. Apenas às direções partidárias à esquerda e à direita do PS.

À esquerda, cogita-se a minimização da previsível perda eleitoral. As negociações com o PS permitiram a governação à esquerda e enormes avanços para os portugueses. Mas os maus resultados das autárquicas e o receio de perder a autonomia estratégica levou ao fim do espírito de compromisso e o retorno à cultura de contestação. Esperam assim conservar parte do seu eleitorado, mas sabem que o fazem à custa de melhorias na vida das pessoas.

À direita, líderes fortemente contestados e em risco de perder os respetivos partidos vêm na antecipação de eleições a melhor esperança de manter o poder interno. Ao mesmo tempo, nesses partidos teme-se que o dinheiro do PRR, o investimento público e a forte recuperação económica melhorem as perspetivas eleitorais do PS em 2023. Melhor, portanto, ir a eleições agora, na ressaca da crise.

Sabem que a única possibilidade de voltarem ao poder será com o apoio da extrema-direita, mas isso não atrapalha a sede de poder.

No confronto eleitoral que provavelmente se avizinha, os portugueses escolherão entre essa solução política marcadamente de direita e a de centro-esquerda proposta pelo PS.

Quando, ao longo dos últimos seis anos, o governo PS conseguiu melhorar a vida dos portugueses, fê-lo com políticas de centro-esquerda. Com essa moderação conseguiram-se muitos avanços caros à esquerda, convergindo com o nível de desenvolvimento europeu, e construiu-se a partir de Portugal uma verdadeira alternativa de política que teve efeitos estruturais em toda a Europa, como se viu na resposta à crise covid. Mas exatamente por isso não se poderia agora ceder a exigências irrealistas, colocando em risco as contas certas, e por isso o Orçamento foi reprovado. O choque terá de ser ultrapassado, e muito provavelmente a palavra do povo terá de se fazer ouvir. Mas o caminho de moderação terá de voltar a ser o escolhido como solução desta crise política.

Sá Carneiro dizia: "Primeiro, Portugal; depois, o partido; por fim, a circunstância pessoal de cada um de nós."

Por estes dias, até Sá Carneiro votaria no PS.

6 VALORES
Jerónimo de Sousa e Catarina Martins

O voto contra o Orçamento do Estado dissolve a solução política que trouxe os seus partidos para a participação nas soluções que melhoraram a vida das pessoas. Difícil de compreender pelos eleitores de esquerda. Mau para os portugueses.

Eurodeputado

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