Os fanáticos do silêncio 

Quase ninguém gosta de Rick Santorum. O ex-senador republicano da Pensilvânia, ex-candidato nas primárias em segundo lugar atrás de Mitt Romney, e trumpista que, a comentar na CNN, reconheceu que o ex-presidente tinha perdido as eleições, já foi criticado, e apoiado, por quase tudo o que disse ou defendeu. Sobre família, aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, evolucionismo, Obama e o medicare e a influência da direita liberal no partido republicano. Mas também por ter defendido o aumento do ordenado mínimo federal, ter reconhecido que a pena de morte é indesejável, ou mesmo por ter consumido canábis na juventude. E agora, pelo que disse e não disse sobre a origem das instituições americanas.

Numa conferência para estudantes conservadores, Rick Santorum considerou que os colonos "criaram uma Nação do nada. Não havia aqui muito, antes. Sim, havia "Native Americans", mas não há muito da sua cultura na cultura americana". E ainda disse que os colonos eram gente que foi para ali e lutou por poder praticar a sua religião e construiu uma nação para o fazer.

Imediatamente, os representantes de várias tribos acusaram-no de ser um supremacista branco defensor do genocídio. "Transmitir na televisão alguém com as suas posições sobre o genocídio dos nativos americanos não é fundamentalmente diferente de colocar um nazi na televisão a justificar o Holocausto", disse-se, e exigiram a sua saída de comentador da CNN.

Uns dias depois, Santorum garantiu que se referia à Constituição e à Declaração de Independência e que foi isso que foi criado do zero. "Eu estava a falar da fundação e dos princípios fundadores (...) a forma como tratámos os Nativos Americanos foi horrível." Serviu-lhe de pouco a explicação e a CNN mandou-o embora.

Considerando que o revisor de um livro seu o considerou "uma mente brilhante do século XIII", não se pode dizer que a controvérsia ou o escândalo sejam uma surpresa. E considerando o contexto e a explicação, não é evidente que defendeu uma coisa que, pelo menos depois, disse expressamente rejeitar. Mas isso não importa. Rick Santorum não foi mandando embora pela CNN por causa do que disse, foi despedido por causa das reações.

Honesta e obviamente, teria sido muito mais interessante alguém tê-lo desafiado para lhe demonstrar o contrário, que há muito da cultura indígena americana nas instituições dos Estados Unidos. Mas ninguém quis fazer isso. As pessoas que se mobilizaram não querem discutir opiniões, querem condenar pessoas. Os zelotas sabem que discutir implica admitir que o que se diz é questionável e que quem pensa diferente é legítimo. Não fazendo uma coisa, arruma-se a outra. E é muito mais fácil combater pessoas do que discutir ideias. Não é preciso ter qualquer simpatia por Santorum para o saber.

Em sociedades liberais confrontam-se diferentes visões do mundo, discutem-se opiniões, apresentam-se factos, desfazem-se ideias estúpidas, se forem. Numa sociedade polarizada, onde há uma escalada permanente pela maior indignação e a maior retaliação, não se pede a fogueira, exige-se a morte social. Ao menos em Atenas o ostracismo durava dez anos. E era votado. Aqui, decide-se pelo tom e dimensão da indignação nas redes sociais.

Nada disto acontece apenas do lado de lá do Atlântico. A Europa, construída depois da Guerra, por democrata-cristãos e socialistas de países que se lutaram ferozmente, para ser um lugar possível para todos, pode bem ser desfeita por gente assim, fanáticos que detestam os outros todos. A começar pelos moderados, que ambos os lados acham sempre cobardes. Como se houvesse maior cobardia política do que não discutir com os outros, e maior indecência democrática do que atacar pessoas em vez de ideias.

Consultor em assuntos europeus

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