Os donos da bola

Muitos não o saberão: Guilherme Pinto Basto foi o introdutor do futebol em Portugal. Tenho a sorte e a honra de ser seu bisneto.

Quando hoje associo aquilo que ele fez, com um enorme orgulho de ter introduzido neste país um pouco mais da cultura do "sportsman", com a realidade atual do que representa o futebol, acredito que ele estará muito pouco orgulhoso da herança que nos deixou.

Na sequência das primeiras partidas realizadas com a comunidade inglesa que vivia no nosso país foi sendo criada uma estrutura organizada de torneios que permitiriam a promoção do desporto e a sua valorização.
Nessa altura, os membros da família Pinto Basto, que eram bastantes, promoveram a criação do Club Internacional de Football e aí se entregaram à deliciosa prática deste novo desporto que ganhou enorme adesão no povo português.

Nesse tempo o futebol era ainda amador, mas cedo se começou a promover a sua profissionalização, seguindo a tendência que se verificava já no seu país de origem.

A posição dos membros da família Pinto Basto foi completamente contrária a este movimento e acabaram por manter o CIF como um clube não profissional, mantendo ainda hoje a realização do campeonato amador de Lisboa.

Várias foram, com certeza, as razões que levaram o clã Pinto Basto a bater-se pela manutenção do desporto amador, mas uma é certa: a convicção de que a profissionalização do desporto o tornaria em negócio e sujeito às maiores tentações que a geração de riqueza sempre traz consigo.

Passados estes anos, tenho que dizer que não sou incondicionalmente alinhado com aquela posição sobre a profissionalização e que esta serviu para promover este desporto e para a sua democratização, principalmente no que respeita ao acesso dos jogadores de menos posses a poderem praticá-lo.

E acho também que, apesar de ser evidente que a exposição ao dinheiro iria permitir uma maior tentação de caminhos errados, toda a nossa vida tem sempre presente esse risco e que somos nós que, conscientemente, podemos dizer sim ou não aos comportamentos que são sérios ou menos sérios.

Não tem sido aquilo que mais temos visto na gestão dos clubes de futebol, nas organizações internacionais, e nem sequer nas estruturas de apoio aos clubes, as chamadas claques.

Mas também não vemos, nas instituições responsáveis pela regulação destas atividades, uma vontade de conseguir transformar aquilo que permite que o futebol continue a ser aquilo que o resto da sociedade condena.
Um ambiente de negócios escuros em que muitos se tornam milionários sem qualquer justificação.

O medo de enfrentar estas questões, que terão reações muito fortes por parte daqueles que delas dependem e vivem, permitiu, no passado, que alguns dirigentes destes clubes não fossem julgados, ou só o fossem depois de deixarem as suas funções, ou ainda, que fossem brandamente punidos.

A responsabilidade está no Estado e nos dirigentes, principalmente dos maiores clubes, mas a sociedade civil também deve começar a fazer pressão junto daqueles para que se possa voltar a viver o futebol com o espírito com que ele chegou ao nosso país, mas sem medo de que se tenha tornado profissional.

Não se trata de tentar santificar o futebol, mas apenas de regular e fiscalizar esta atividade com o mesmo vigor com que se vigiam as pequenas empresas, entidades anónimas e sem vedetas ou meios para lutar contra os abusos de quem fiscaliza.


bruno.bobone.dn@gmail.com

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