Mussolini, digo, Bolsonaro

A receita do ditador fascista parecia ter dado certo. Até que ele terminou pendurado em praça pública de cabeça para baixo.

Se há um insulto que, de tão abusado, sofreu enorme desvalorização é o de fascista. No começo, designava as milícias do italiano Benito Mussolini, que marcharam sobre Roma em 1919 e o levaram ao poder. Aos poucos, tornou-se sinónimo de regime totalitário e, com o nazismo, chegou ao máximo da brutalidade. Durante o século XX, no entanto, o epíteto se generalizou e passou a designar qualquer pessoa que não seja "de esquerda". É um leque que, dependendo dos interesses em jogo e de quem despeja o impropério, abrange desde os hidrófobos assumidos de direita até os vagamente reacionários, conservadores, centristas, liberais, neoliberais, democratas-cristãos e até sociais-democratas. Todo mundo - se calhar, até Estaline - já foi um dia chamado de fascista.

No Brasil, a palavra definiu com grande propriedade o ditador Getúlio Vargas (1937-1945), que promoveu o culto à personalidade nos moldes de Salazar, fechou o Congresso, aboliu o voto, matou opositores e, já com a Segunda Guerra em curso na Europa, flertou abjetamente com o nazismo e dificultou a entrada de refugiados judeus no país. A palavra definiu também os militares que, em grande parte da ditadura de 1964 a 1985, governaram sem eleições, sem Congresso, sem habeas corpus e com torturas e "desaparecimentos" nos porões das Forças Armadas. Mas, em 1985, com a redemocratização, o Brasil tomou jeito e fomos razoavelmente felizes por muitos anos, com total liberdade de associação e presidentes de que se podia gostar ou não (quase sempre, não), mas nunca poderiam merecer aquele epíteto. Até que, em 2015, a palavra fascista voltou - para definir os que apoiavam o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Como, segundo as pesquisas, Dilma era desaprovada por 80% do povo brasileiro, imagine a quantidade de fascistas subitamente na praça por aqui.

E, desde então, nunca mais o Brasil se viu livre da palavra. Fascista passou a ser todo mundo de quem discordamos e por qualquer motivo. É tanto policial que abre a pontapés a porta de um barraco numa favela quanto um guarda que nos aplica uma multa no trânsito, o patrão que nos nega aumento de salário ou a sogra que inferniza o nosso casamento. A palavra perdeu o sentido original e deixou até de ser um insulto. Com isso, os fascistas de verdade - aqueles que professam com fervor e devoção os princípios do fascismo clássico - ficaram num limbo que lhes permite operar com desembaraço. Talvez seja a hora de defini-los mais tecnicamente.

O fascista é nacionalista. Acredita numa conspiração global contra os valores e as riquezas de seu país. Por isso, e por não confiar no mercado, que é internacionalista, apoia uma pesada intervenção do Estado na economia. Combate ferozmente os políticos e os juristas, que, para ele, não passam de um bando de corruptos exceto, claro, os que servem o seu líder - este, sempre um político e/ou militar carismático, com discurso "patriota", messiânico, moralizante e escorado em valores imprecisos, como "Deus", "família" e "honestidade". Os que não seguem tais linhas serão, por definição, comunistas. O fascista pratica o culto da ação e da violência e prega o armamento do "povo" contra uma hipotética ditadura. Na verdade, visa à tomada de um poder acima da lei e até do Exército - a própria ditadura. Disfarçadamente ou não, patrocina desfiles motorizados (aqui, chamados de "carreatas") com militantes embrulhados nas cores nacionais buzinando e berrando palavras de ordem pelos alto-falantes, tentando dar a impressão de que tem o "povo" ao seu lado.

No Brasil, esta descrição do fascista típico - uma receita de Mussolini, que adaptei de uma enciclopédia do pensamento político publicada nos anos 1960 - tem um desagradável odor familiar. Adequa-se perfeitamente à figura de Jair Bolsonaro, eleito presidente em 2018, não porque a maioria dos eleitores brasileiros o visse com bons olhos, mas porque não queriam a volta do PT ao poder - e não acreditavam que ele conseguisse pôr em prática suas ideias absurdas a favor da ditadura e da tortura, contra as minorias etc.

Mas Bolsonaro surpreendeu até seus mais convictos adeptos. Em quase ano e meio de governo, armou uma estrutura destinada a eternizá-lo no poder, composta de militares de alta e baixa patente, da ativa ou da reserva, em milhares de cargos do executivo, e de uma rede de disparos digitais de agressões e fake news emanadas de certo "gabinete do ódio", controlado por um de seus filhos. Estas mensagens pretendem desmoralizar os poderes judiciário e legislativo, jogando o povo contra eles. E tudo isto para quê? Para pôr em prática um programa muito semelhante à receita do fascismo.

Bolsonaro cercou-se de auxiliares que acreditam na cobiça internacional da Amazónia, na existência de um "sistema" que é preciso destruir e na infiltração comunista em todos os setores da educação, da cultura e dos costumes. Por isso, a Amazónia está sendo abatida ou queimada à razão de dezenas de campos de futebol por dia, as instituições são agredidas a todo momento e o dinheiro para universidades, bibliotecas, museus, fundações e todas as artes reduziu-se a zero.
Enquanto isso, Bolsonaro prega que o "povo" se arme, liberando a compra sem controle de armas e munições. E tudo isso - pasme! - em meio à pandemia da covid-19, cuja gravidade ele minimiza e cujas medidas de proteção sabota, atitude que provavelmente matará mais gente no Brasil do que no mundo inteiro junto.

Contra Bolsonaro estão parte do poder legislativo (a que ele ainda não comprou com cargos e verbas), todo o poder judiciário, toda a grande imprensa e, espera-se, a fação do Exército que, dizem, não quer ser confundida com seu governo. E, mais importante, já a maioria do povo brasileiro.

A receita de fascismo por Mussolini, seguida por Bolsonaro, deu certo por muitos anos. Mas, um dia, terminou com Mussolini pendurado em praça pública de cabeça para baixo.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de O Anjo Pornográfico - A Vida de Nelson Rodrigues (Tinta-da-China).

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