Ser pai não é (apenas) ajudar a mãe

"Ser pai, nos dias de hoje, não é apenas ajudar a mãe. De todo. É assumir de forma plena os cuidados aos filhos, nas suas várias dimensões, procurando satisfazer todas as suas necessidades"

A sociedade mudou. A família mudou. E os papeis associados ao exercício da parentalidade também mudaram.

Quando olho para trás, percebo que cresci no seio de uma família tradicional, em que o pai trabalhava e a mãe estava em casa, a cuidar dos filhos. Os papéis estavam bem definidos e, no que respeita ao exercício da parentalidade, era assegurado pela mãe e isso não era sequer questionado. Era assim e pronto.

Mas o tempo passou, a sociedade e a família mudaram (e muito) e, nos dias de hoje, esta distribuição rígida e assimétrica de papéis faz cada vez menos sentido. Não significa, naturalmente, que não existam famílias que decidam manter esta forma de dividir as tarefas. E, sendo de mútuo acordo, porque não?

Mas muitos outros casais revelam dificuldade em gerir todas estas mudanças e em adaptarem-se a uma nova realidade. A mulher entrou na área profissional e, de uma forma progressiva, assegura cargos de maior poder e responsabilidade, embora os salários recebidos sejam ainda, em tantas situações, desiguais entre homens e mulheres para as mesmas funções. Assistimos, assim, por um lado, a uma afirmação crescente da mulher na esfera pública e, ao mesmo tempo, a uma divisão de tarefas na esfera doméstica que não é, ainda, equitativa.

No que à parentalidade diz respeito, observa-se também uma assimetria na forma como os pais satisfazem as necessidades das crianças. Observamos as mães mais envolvidas na satisfação das necessidades básicas (por exemplo, dar o banho, preparar a papa ou cuidar da criança quando está doente) e os pais mais envolvidos nas actividades lúdicas.

Ora, estes dados exigem uma reflexão a vários níveis.

Em primeiro lugar, é preciso ajudar os pais (homens) a assumir um papel mais activo e interventivo, não apenas nas tarefas domésticas (sabemos que lavar a louça e passar a ferro é chato, mas é a vida), mas também nos cuidados aos filhos. Brincar é muito divertido, mas as necessidades das crianças vão muito para além disso. Ser pai é muito mais do que ajudar a mãe. É assumir de uma forma realmente equitativa os cuidados aos filhos, nas mais diversas áreas. Mudar fraldas, dar banhos e acordar a meio da noite não são tarefas apenas da mãe. Onde é que isso está escrito?

Em segundo lugar, é preciso ajudar as mães a darem espaço para que os pais intervenham. Pois é, muitas mães não permitem sequer que os pais cuidem das crianças, imbuídas ainda da ideia (tradicional) de que a mãe é que sabe como se faz. Criticam, julgam e desfazem aquilo que o pai faz, tantas vezes à frente da própria criança, que acaba por crescer com a ideia de que o pai não sabe cuidar dela.

Ser pai, nos dias de hoje, não é apenas ajudar a mãe. De todo. É assumir de forma plena os cuidados aos filhos, nas suas várias dimensões, procurando satisfazer todas as suas necessidades.

Em terceiro lugar, mas não menos importante, é preciso reflectir sobre o que andamos a ensinar às crianças que são, afinal de contas, os adultos e os pais de amanhã. Se continuarmos a educar as raparigas para serem princesas e a brincarem com bonecas e os rapazes para serem agressivos e ganharem lutas, que mensagens estamos nós a transmitir-lhes? Esperamos das meninas passividade e submissão e dos meninos agressividade? Educadas desta forma, que papeis irão assumir quando crescerem? Será que não estamos ainda a educar as crianças para assumirem, mais tarde, papeis tradicionais que se querem ultrapassados?

Ser pai, nos dias de hoje, não é apenas ajudar a mãe. De todo. É assumir de forma plena os cuidados aos filhos, nas suas várias dimensões, procurando satisfazer todas as suas necessidades. Se assim for, diria que estaremos a educar as crianças (independentemente do seu género) para uma sociedade pautada pela igualdade e pelo respeito face ao outro. Diria ainda, estaremos a educar para uma sociedade mais justa e mais empática, centrada na entreajuda e na cooperação, em detrimento da competição.

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