Quando os pais fazem interrogatórios aos filhos

Muitos pais separados ou divorciados evidenciam uma enorme necessidade em controlar tudo o que se passa em casa do outro. Quando a criança lá está, essa necessidade é exacerbada e a única forma de aceder a esse tipo de informação é, efectivamente, através da criança. Que vai para a casa de um dos pais cheia de recados e recomendações e, quando regressa, é inundada de perguntas. No meio dos beijos e abraços, um verdadeiro interrogatório policial.

As crianças são confrontadas com uma cascata de perguntas, algumas mais subtis, outras mais explícitas, mas todas com o mesmo objectivo: controlar e obter informação que possa depois ser usada como arma de arremesso contra o outro progenitor. "O que fizeste, onde foste, com quem estiveste, o que comeste, o que bebeste, a que horas foste para a cama, e como foi o banho, que roupa vestiste, e usaste casaco, e botas, e até que horas viste televisão, quem foi lá a casa..." são apenas alguns exemplos de perguntas...

Pensemos agora na criança. Como se sente ela perante estes «pais-detective» que tudo querem saber, tudo invadem e, tantas vezes, tudo distorcem?

Quando a criança percebe que existe um conflito parental, e é de alguma forma exposta ao mesmo, experiencia habitualmente um conflito de lealdade. Como pode continuar a gostar de ambos os pais se percebe que um deles, ou ambos, desejam o contrário? Como gerir dentro de si a necessidade em estar com ambos e, ao mesmo tempo, o receio de os magoar?
Falamos de um conflito que surge associado a emoções desagradáveis. Culpa por ter saudades ou por ter gostado de brincar com um dos pais. Tristeza por não poder exprimir aquilo que sente, sem condicionantes nem pressões externas. Raiva face a um ou ambos os pais, por aquilo que a fazem sentir. Medo de consequências negativas, para si ou para os pais. Ansiedade associada à imprevisibilidade e à incerteza.

Ora, perante estes interrogatórios, a criança tem várias opções. Fecha-se em copas e diz que não sabe ou não se lembra. Conta a verdade e confronta-se depois com mais perguntas, tantas vezes sugestivas, como quem vai à procura de algo. Ou mente e distorce, como forma de agradar a quem a interroga.

Qualquer uma destas três alternativas acarreta consequências negativas para a criança, instrumentalizada no meio do conflito que acaba apenas por se agudizar.

As crianças precisam de tempo e espaço para poder conviver de forma saudável com ambos os pais, sem pressões, sugestionamentos ou interrogatórios.

E o que dizer dos pais que têm rotinas ou hábitos um pouco diferentes? Pois é o mais habitual. Mesmo quando vivem juntos, os pais apresentam estas diferenças. Desde que não sejam diametralmente opostas, não representam qualquer perigo para o bom desenvolvimento da criança.

Que se permita à criança ter a liberdade de contar o que quiser, a quem quiser e como quiser. Que lhe seja dada a oportunidade de ser espontânea e de poder partilhar aquilo que para si é importante. Sem que lhe sejam pedidos segredos ou exigidos relatórios.

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