Psicopatas entre nós?

"É possível convivermos de forma próxima com um psicopata e não percebermos? E que outras perturbações podem estar associadas ao cometimento de crimes violentos?"

Uma jovem foi assassinada, ao que se sabe por um colega da faculdade, por motivações ainda desconhecidas. Desconhecidos são também os contornos específicos deste crime que, em sede própria, será julgado. Não pretendo, nem posso, ajuizar a conduta do suspeito em causa, sendo que apenas a avaliação psiquiátrica e psicológica poderá auxiliar na compreensão das suas motivações e modo de funcionamento.

Sempre que ocorre um crime mais violento, sejam vítimas crianças ou adultos, aqueles que conhecem pessoalmente os suspeitos indignam-se com a possibilidade de terem convivido durante anos e anos com alguém que, de repente, parece capaz de cometer crimes desta natureza.E rapidamente os rotulamos como psicopatas.

Ora, se é verdade que existe uma forte relação entre psicopatia e violência, também existem outras duas verdades importantes: nem todos os psicopatas cometem crimes, e nem todos os crimes violentos são cometidos por psicopatas.

Mas do que falamos, então, quando falamos em psicopatia? É possível convivermos de forma próxima com um psicopata e não percebermos? E que outras perturbações podem estar associadas ao cometimento de crimes violentos?

Os psicopatas manifestam ainda dificuldade em aceitar a responsabilidade pelos seus atos, impulsividade e necessidade de estimulação.

A psicopatia envolve um conjunto de características ao longo de um continuum, o que implica que as diferenças nos traços psicopáticos entre sujeitos variem em grau (ou gravidade), e não tanto em termos de ser ou não ser psicopata.

Assim, importa perceber o modo específico como cada pessoa funciona ao longo desse continuum. Falamos de um estilo relacional com grande charme superficial, sentido de grandiosidade do self (elevado narcisismo) e comportamentos de manipulação, a par de superficialidade afetiva, baixa empatia e ausência de remorsos. Os psicopatas manifestam ainda dificuldade em aceitar a responsabilidade pelos seus atos, impulsividade e necessidade de estimulação.

Ora, sabemos que existe, de facto, uma forte relação entre psicopatia e violência, que pode ser explicada por três tipos de mecanismos. A nível cognitivo, os psicopatas parecem ter cognições (pensamentos, fantasias e impulsos) anti-sociais, percepcionando o comportamento anti-social como normativo (não é visto como desviante). A nível afetivo, a ausência de culpa, remorsos ou medo pode ser facilitadora do cometimento de atos violentos. Por fim, a nível comportamental, destaca-se a elevada impulsividade, tantas vezes potenciada pelo consumo de substâncias (álcool ou drogas).

Tendo em conta que algumas destas características podem estar presentes em parte significativa da população é, de facto, possível convivermos com pessoas com traços psicopáticos e não sabermos. Se pensarmos um pouco... diria que (quase) todos nós já conhecemos alguém assim...

Sim, existem psicopatas entre nós. E nem todos eles cometem crimes violentos.

Ao mesmo tempo, sabemos que nem todos os crimes violentos são cometidos por psicopatas. São muitas vezes pessoas que apresentam perturbações da personalidade e outras em comorbilidade, sem que isso nos permita falar em psicopatia. E sim, também podemos conviver com estas pessoas sem desconfiar que algum dia poderão passar ao ato.

Que esta explicação possa serenar um pouco o coração de quem conhece os suspeitos ou autores de crimes violentos e que se culpam, tantas vezes, por não terem sequer desconfiado ou conseguido prever ou prevenir um desfecho trágico.

Acompanhem-me no meu canal de Youtube com vídeos dirigidos a crianças e jovens, às famílias e aos profissionais.

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