Professores com super-poderes

A minha professora tem super-poderes», disse-me uma criança. «Porque ela ensina as coisas dos livros, mas ainda tem tempo para tantas outras coisas!"

Os alunos estão de regresso à escola e os professores enfrentam este ano um desafio acrescido, atendendo às múltiplas dificuldades que as crianças e jovens podem evidenciar. Como dizia uma criança, os professores precisam de verdadeiros super-poderes!

É natural que muitos alunos experienciem com ambivalência este regresso às aulas. Por um lado, as saudades dos amigos e da interacção social e, por outro, o medo e a ansiedade associados a uma maior exposição ao vírus. Enquanto que, até certo ponto, o medo pode ser adaptativo, noutras situações pode originar reacções fóbicas, com elevada ansiedade e comportamentos de evitamento. Outros podem manifestar rituais compulsivos de lavagem e desinfecção, excedendo em larga escala aquelas que são as recomendações de segurança. Face às regras que muitas escolas estão a adoptar, algumas crianças antecipam mesmo uma sensação de «prisão» associada ao facto de terem intervalos mais curtos e dentro da sala.

Não podemos também esquecer as crianças com algum tipo de dificuldade prévia, que pode agora ser exacerbada pelas circunstâncias. Perturbações de ansiedade associadas a alterações no sono e na alimentação, maiores dificuldades de atenção e concentração e, consequentemente, de aprendizagem. Relativamente à máscara, e não obstante o seu uso ser já rotineiro, pode dificultar a relação com o outro, na medida em que apenas acedemos a parte da expressão facial, ao mesmo tempo que é um obstáculo acrescido para quem tem dificuldades auditivas. Temos ainda de pensar nas crianças e jovens que durante meses foram (ainda mais) expostos a situações de violência no seio da família, podendo agora evidenciar alterações emocionais, de comportamento ou outras.

Inspirada nesta criança e nos super-heróis que as crianças idolatram, diria que os professores precisam destes super-poderes:

Coragem para lutar contra o medo, enfrentando-o de gel em punho e máscaras no rosto (porque todos os super-heróis têm um fato especial!).

Envolvimento afectivo com os alunos, ajudando-os a sentirem-se protegidos, confiantes e seguros, de tal forma que consigam expressar aquilo que sentem, mesmo as emoções mais desagradáveis.

Realidade. Encarar a realidade de uma forma objectiva, evitando a minimização do risco ou, pelo contrário, a sua maximização.

Paz. Este super-poder ajuda as crianças a experienciarem uma sensação de bem-estar e tranquilidade, que as ajuda a percorrer mesmo os caminhos que parecem mais inultrapassáveis.

Elasticidade. Não falamos de professores com braços elásticos, mas sim com flexibilidade na forma de abordar as diversas situações e os problemas.

Inteligência, acima de tudo emocional. Saber escutar os alunos e lê-los muito para além daquilo que dizem.

Resiliência, de modo a conseguirem retirar aprendizagens das dificuldades, encontrando um caminho seguro em que todos possam crescer.

Tempo. Este é um super-poder que, em articulação com os demais, permite entender as especificidades de cada criança. Porque cada uma tem o seu mundo e as suas necessidades. Temos apenas de estar atentos, sem pressa.

O último super-poder é o Encantamento. Porque um aluno encantado é um aluno mais predisposto e motivado para aprender, muito para além daquilo que ensinam os livros.

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