Pais capazes

Serão os pais (homens) capazes de cuidar dos filhos? Ou, pelo menos, tão capazes como as mães? É tempo de dizer claramente que sim e que as competências para cuidar de um bebé ou uma criança não são exclusivas da mãe.

Olhamos à nossa volta e vemos inúmeras crianças acompanhadas apenas pela mãe ou pelo pai. Sinais dos tempos, em que os divórcios apresentam estatísticas assustadoramente elevadas.

E se, quando a criança está com a mãe assumimos de forma automática que é bem cuidada, o mesmo não se passa quando está com o pai. Talvez por isso tenha ouvido hoje alguns comentários junto à piscina, como "olha o jeito que o pai tem para acalmar o filho", "repara como o pai muda tão bem a fralda" ou, ainda, "a paciência que aquele pai tem para as birras da filha!"

Comentários que traduzem a ideia base, ainda tão enraizada na forma de pensar de muita gente, que cuidar de uma criança é algo inato para as mães, mas não para os pais. Que apenas as mães sabem acalmar um filho e cuidar dele de forma competente. E, ainda, que a paciência da mãe é infinitamente superior à do pai.

Ideias erradas e sem fundamentação científica.

Estamos perante crenças baseadas numa conceção tradicional da parentalidade, em que os papeis de género surgem rigidificados - o pai "ganha pão" e provedor da subsistência da família vs a mãe cuidadora da casa e dos filhos. Estamos, porém, em 2020, e não poderíamos estar mais distantes desta realidade. Não só as mulheres de hoje se assumem também como profissionais igualmente competentes, ganhando terreno no mercado de trabalho, como os homens querem ver reconhecidas as suas competências enquanto pais cuidadores. E se, no que às mulheres diz respeito, enfrentam ainda muitas barreiras, estereótipos e desigualdades enquanto profissionais, também os homens se deparam com inúmeras dificuldades quando chega a hora de quererem assumir sozinhos (após uma separação ou divórcio) o seu papel parental.

Assim, convém sublinhar que não existe qualquer evidência empírica de que as mães sejam melhores cuidadoras do que os pais. As competências parentais relacionam-se com inúmeras variáveis e o sexo do progenitor não é uma delas. O que equivale a dizer que temos mães e pais muito competentes para o exercício da parentalidade, da mesma forma que temos mães e pais com fragilidades que comprometem de forma muito significativa este mesmo exercício. Mais especificamente sobre os estudos da vinculação e aquilo que eles nos dizem sobre a capacidade da criança se vincular a mais do que uma figura cuidadora, ver este texto também.

Se existem diferenças na forma como as mães e os pais interagem com os seus filhos? Seguramente. Sabemos hoje que as mães interagem sobretudo de uma forma verbal e são mais expressivas do ponto de vista afetivo. Por seu turno, os pais interagem de uma forma mais motora e são mais criativos nas atividades lúdicas. Falamos, assim, de diferentes formas de estimular o bebé, que se complementam e contribuem para um maior bem-estar. Diferenças que tendem também a esbater-se, fruto das alterações sociais e familiares que se refletem, naturalmente, na relação parental.

Dito isto, podemos afirmar, em abstrato, que os pais são tão capazes como as mães a cuidar dos seus filhos. Não nos espantemos, por isso, quando virmos um pai a brincar às bonecas, a rebolar na relva e a fazer cócegas, a dar o banho ou a mudar a fralda. Faz parte do seu papel parental e não é nada de extraordinário que mereça uma medalha e uma salva de palmas.

Os pais agradecem e os miúdos também.
E as mães... se estiverem realmente centradas no bem-estar e no interesse dos seus filhos, agradecem mais ainda.

Acompanhem-me no meu canal de Youtube com vídeos dirigidos a crianças e jovens, às famílias e aos profissionais. Espero por todos!

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