O que sente uma criança grávida?

Uma criança brasileira de 10 anos de idade engravidou, fruto de uma violação por parte de um tio. Esta criança viu-se impedida de abortar e terá sido atacada por algumas pessoas, que se manifestaram contra o aborto. Sobre esta notícia recente, urge dizer alguma coisa.

Antes de mais, devo admitir que, mesmo a trabalhar nesta área há 22 anos e tendo já visto diversas crianças grávidas, continuo a sentir náuseas e má disposição quando me deparo com estas situações. Não há experiência suficiente que possa ajudar a encarar a gravidez de uma criança sem ativar as emoções mais desagradáveis.

Apesar de ser um exercício muito difícil, peço que se coloquem no papel de uma criança que é violada. Recordo a "Maria", de 10 anos de idade, que me relatou o seguinte:

"O meu pai começou a ir ter comigo ao quarto, a fazer-me festinhas e coisas... No início não percebia o que se passava, achava que era normal os pais fazerem aquilo às filhas... mas depois começou a pedir outras coisas..."

A "Maria" acabou por engravidar. Recordo, acima de tudo, a sua incompreensão sobre como teria o bebé "ido parar" à sua barriga. E a dificuldade em não pensar: "Eu queria esquecer, mas assim não consigo..."

Este relato faz-nos sentir coisas horríveis. Mas o abuso sexual e a violação das crianças existe. Em Portugal e no mundo inteiro.

Respeito a posição daqueles que são contrários ao aborto. Nestes casos, porém, devemos pensar, antes de mais, que estamos perante crianças vítimas de crimes sexuais e que carregam no ventre a prova viva desses crimes. Crianças que não têm sequer maturidade para perceber aquilo que vivenciaram e que, de repente, são colocadas num papel maternal. Crianças que não foram cuidadas nem protegidas e que agora se espera que protejam e cuidem.

O abuso sexual é uma experiência adversa que tem um forte impacto negativo na criança que é vítima. Entre as diversas consequências que podem surgir, a perturbação stress pós-traumático é uma delas. Esta perturbação caracteriza-se, entre outros sinais e sintomas, por um processo de evitamento cognitivo e comportamental, levando a vítima a tentar não pensar e a evitar todos os estímulos que podem potenciar a evocação do trauma. Ora, qual o impacto que um bebé na barriga tem neste processo?

É simples. A criança vítima não consegue não se recordar. Não consegue evitar lembrar-se. O que equivale a dizer que reexperiencia o trauma uma e outra vez... e mais vezes... e assim sucessivamente até o bebé nascer e poder libertar-se de um estímulo que, noite e dia, lhe recorda o abuso e a violação.

Já ouvi muitas crianças vítimas de abuso sexual... algumas delas grávidas... e por mais que tente, por mais que me esforce, sinto que não consigo ainda apreender a verdadeira dimensão do que sentem. Transcende-me.

Como pode alguém tentar retirar a estas crianças o derradeiro direito de serem, ainda que muito tardiamente, protegidas? Como pode alguém tentar obrigar estas crianças a conviverem durante nove meses com a memória viva deste crime atroz?

Embora prevenir o abuso sexual seja o caminho, muitas situações há em que a prevenção já não vai a tempo. Nestas, há que tentar minimizar os danos e reparar, na medida do possível, as sequelas do abuso.

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