"Apanhei muitas e só se perderam as que caíram no chão"

Muitos pais que, em crianças, foram vítimas de maus tratos físicos, crescem e aprendem a aceitar estes comportamentos, cuja gravidade minimizam. Afinal, uma sova nunca fez mal a ninguém e só se perdem as que caem no chão. Bater com objetos, dar murros, e pontapés ou apertar o pescoço são alguns exemplos, pelo dano físico e emocional que provocam.

Esta forma de olhar para os maus tratos físicos reflete um conjunto de crenças disfuncionais sobre a punição física. Por um lado, acredita-se que a violência física é legítima e, por outro, que é mesmo desejável e necessária para educar uma criança. Estes pais acreditam que há crianças que só é possível educar batendo-lhes e, ainda, que bater é, muitas vezes, a única solução para o mau comportamento. Defendem também que uma criança "não tem quereres" e tem obrigação de obedecer sempre aos seus pais, o que traduz elevada rigidez e valores mais conformistas, na medida em são pais que valorizam o cumprimento de regras, a submissão e a obediência.

Estamos, assim, perante pais que, com maior probabilidade, recorrem a práticas parentais punitivas como forma de educar os filhos e garantir o seu bom comportamento.

Sabemos que o impacto dos maus tratos físicos é muito negativo, a curto, médio e longo prazo. Geram tristeza e revolta, zanga e desejo de vingança, contribuindo também para a sensação de que não se é suficientemente amado. Ao longo do tempo, potenciam insegurança, baixa autoestima e maior dificuldade na gestão das emoções e dos comportamentos.

E o que ensinam os maus tratos às crianças? Nada de bom.

Ensinam que a violência é uma boa forma de resolver os problemas e, não raras vezes, assistimos a uma reprodução destes modelos com os irmãos e os amigos. Outras tantas vezes, as crianças mostram-se agressivas também com os adultos, generalizando uma forma desajustada de gestão dos conflitos.

Recentemente uma mãe dizia-me, a propósito das cicatrizes que carrega no corpo, que as chicotadas que levava do seu pai tinham um lado mau e um lado bom, pois doíam, é certo, mas também a ajudaram a ser mais aplicada nos estudos. Uma mãe que também hoje chicoteia os seus filhos como forma de os manter na linha.

Mas atenção! Ter sido batido na infância não significa, necessariamente, que se legitime o recurso à violência e que esta seja depois reproduzida. Apesar de o risco ser acrescido, não existe uma relação de causa-efeito e muitos pais maltratados crescem dizendo para si mesmos que querem educar os filhos da forma contrária àquela em que foram educados.
Pais que conseguem centrar-se no bem-estar dos filhos e encontrar outras formas de os ajudar a crescer de uma forma ajustada.

Pais que entendem que, mais do que magoar o corpo, os maus tratos magoam o coração das crianças. Feridas que não se veem e para as quais não existem pensos ou ligaduras.

Mais Notícias