A criança cartaz num evento político

Uma criança (não interessa a cor da pele) esteve presente num evento de um partido político (também não interessa qual) com um cartaz ao peito dizendo que é adoptada, angolana e que os pais são desse mesmo partido.

Perante isto, o que dizer?

Em primeiro lugar, importa salientar que falamos de uma criança e, por isso mesmo, de alguém que, em razão da idade, não tem ainda a maturidade necessária para poder tomar determinadas decisões e compreender as possíveis implicações dessas mesmas decisões. Uma criança que não pode, portanto, decidir se quer estar presente num evento político divulgando publicamente informação confidencial, que é assim também tornada pública.

Estamos perante uma situação que viola de forma grave diversos direitos daquela criança. Por um lado, verifica-se um uso abusivo da sua imagem e a clara violação do direito de protecção da sua vida privada. A criança é exposta quase como se de um troféu se tratasse. Instrumentalizada em função de determinados fins. Coisificada, diria mesmo.

Os adultos responsáveis por esta criança não a souberam proteger. Temos, hoje, a sua imagem viralizada nas redes sociais, o que nos faz pensar no possível impacto negativo desta situação no seu bem estar. Como estará hoje a sentir-se esta criança? Quando sai à rua, que tipo de comentários ouve? E o que dizer da sua família biológica que, de acordo com a legislação aplicável, não deverá conhecer a identidade da família adoptante? E quando a criança crescer e tiver outra capacidade para olhar para esta situação, o que sentirá?

Parece-nos que, neste caso, poderão estar em causa maus tratos emocionais, por a criança ser exposta a uma situação que a desprotege e desumaniza. Por ser usada como um meio para atingir um fim. E por ser sujeita a possíveis comentários depreciativos fruto dessa mesma exposição.

Posto isto, espero agora que as entidades competentes na matéria avaliem e se pronunciem sobre a protecção (ou falta dela) desta criança.

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