StayAway app da covid. Como foste feita, serves para pouco

Tecnicamente desenvolvida para assegurar o anonimato e a confidencialidade das informações nela contidas e trocadas na rede, a nova app do governo que visa ser uma ferramenta de ajuda ao combate à pandemia tem um enorme calcanhar de Aquiles: as pessoas.

A app StayAway Covid, apresentada nesta terça-feira pelo governo, mas já disponível, pelo menos, desde o dia anterior nas plataformas móveis, chega só para a segunda fase da pandemia e, pela forma como foi concebida, a sua eficácia não será grande.

Isto porque, após tanta preocupação com proteção de dados e confidencialidade - assuntos obviamente importantíssimos e que tiveram de ser postos num dos pratos da balança, colocando-se do outro lado as questões de saúde pública que o novo coronavírus trouxe -, o resultado foi um sistema de tal forma baseado no voluntarismo dos utilizadores que torna a app praticamente inútil.

Desde logo porque a sua instalação nos telemóveis é voluntária. Objetivamente, só o poderia ser, até porque o serviço é lançado numa altura em que o país já não está em estado de emergência, pelo que não se vislumbra uma forma constitucional de obrigar os cidadãos a instalarem nos seus aparelhos (sua propriedade privada) uma aplicação que não queiram. Pelo que, independentemente dos apelos ao "dever cívico" de António Costa, muitos provavelmente não estarão para isso.

Havia outras opções técnicas, uma das quais passava pela monitorização (semianónima) da posição dos telefones relativamente às antenas de redes de telemóvel, por exemplo - afinal, as operadoras sabem permanentemente onde cada um de nós está: é o preço que pagamos (além da fatura ao fim do mês) para podermos falar com a família e os amigos -, mas tal foi considerado demasiado "big brother". Provavelmente com razão...

Mas mesmo dando de barato a questão do fator voluntário, há todo o funcionamento da própria app. É que para o sistema saber que o indivíduo está infetado com covid-19, este último precisa de introduzir um código que lhe é fornecido após ter feito um teste que tenha dado positivo.

Como, desculpe? Introduzir um código? Manualmente?! Mas acham o quê, que isto é para jogar no Placard?

É que sem serem os jogos da Santa Casa (e possivelmente a hipótese de obter uns quaisquer descontos), não me ocorre mais situação nenhuma em que os portugueses metam códigos seja lá onde for. Até quando era para sortear automóveis do fisco - que agora são títulos do tesouro - tiveram o bom senso de pôr os talões a ser gerados automaticamente.

Por fim optou-se por um sistema que utiliza o Bluetooth de baixo consumo para funcionar. À partida menos mau (ao menos não precisa que o telefone tenha a internet móvel ligada - apesar de ter de se ligar à net "lá de casa" uma vez por dia, pelo menos -, algo que muitos portugueses com plafonds baixos não usam), mas mesmo assim, péssimo.

Isto porque o Bluetooth de baixo consumo, que como o nome indica é o que gasta menos energia, liga-se exatamente no mesmo botão do aparelho que o Bluetooth "normal" - aquele que muita gente desliga para tentar fazer com que a bateria do telefone dure o dia todo.

Ora, para a app funcionar. o Bluetooth tem de estar ligado todo o dia, senão é o mesmo que não a ter instalada.

Resumindo: temos um serviço novo, pago por todos nós, que para funcionar depende de:

- Todas as pessoas com que nos cruzamos na rua ou ao pé de quem nos sentamos na esplanada o tenham instalado nos seus aparelhos;

- Que todas, caso tenham um teste positivo à covid, tenham metido o código na app;

- Que todas tenham o Bluetooth ligado;

- Que todas tenham bateria no telefone;

- Ah, já me esquecia, e que estejamos uns 15 minutos ao pé uns dos outros para aquilo se ativar...

Eu, pelo menos, bebo um café em menos tempo do que isso, suspeito que o vírus "também".

Jornalista

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