Sempre que eu vou ao WC em casa, alguém na China sabe (a propósito do 5G)

E estou-me nas tintas para isso. Os supostos "perigos" da próxima geração da internet móvel já estão no nosso dia a dia há muito e na realidade mal se dá por eles. O que não significa que os alertas norte-americanos acerca da Huawei não façam sentido...

É a mais pura das verdades. Sempre que eu vou à casa de banho na minha residência, alguém na China pode saber, basta querer. Também podem saber exatamente a que horas me deito, quando entro na cozinha pela primeira vez no dia ou exatamente em que segundo ponho os pés na sala para fazer uma sessão de cinema em família.

Já agora, a mesmíssima informação vai também para os americanos.

Este é o preço que eu e a minha mulher pagamos diariamente para termos uma casa dita "inteligente". Temos toda a iluminação da casa controlável através da Alexa, a assistente digital da Amazon, mas para que o investimento inicial ficasse um pouco mais baixo optámos por interruptores e lâmpadas da "internet das coisas" de um serviço chinês que "fala" com a Alexa.

Assim, de cada vez que, no exemplo acima, eu vou para a casa de banho, dou ordem à Alexa para que acenda as luzes dessa divisão. E enquanto dou a meia dúzia de passos (a casa não é assim tão grande) que me levam ao destino, tecnicamente, mais ou menos à velocidade da luz, estão a acontecer várias coisas:

- O dispositivo Echo que ouviu a minha voz "traduziu" o som em instruções eletrónicas;

- Enviou-as pela internet (para isso essas instruções são divididas em pequenos pacotes, mas não entremos por aí) para um servidor da Amazon -- provavelmente nos EUA, ou na Irlanda, consoante o local onde o sistema detete que a ligação esteja mais rápida;

- Esta máquina, detetando que está a receber um pedido para um serviço "terceiro" (o referido serviço chinês), contacta então o servidor na China dizendo o equivalente eletrónico a "Está aqui este cliente a pedir-te para acenderes a luz n.º tal" (que se chama 'Bathroom light');

- A máquina na China recebe a instrução, regista-a, envia o sinal pela internet para o interruptor da minha casa de banho;

- Depois de receber do interruptor o "Ok, já acendi", volta a comunicar com a Amazon -- que por sua vez comunica com o Echo na minha casa -- dizendo que a tarefa foi realizada.

Isto acontece em menos de dois segundos. E tudo para acender uma luz. Vale a pena? Não sei. Mas lá que é muito cómodo, é.

O processo é semelhante para todas as outras funções que estes aparelhos permitem: pôr música a tocar; ligar e lançar programas na XBox (as funcionalidades na PlayStation são mais limitadas); até mandar o Roomba aspirar a casa. Depende apenas de se terem comprado aparelhos compatíveis.

É este o poder da Internet das Coisas (IoT na sigla inglesa). Quanto mais conectados estiverem os dispositivos, quanto mais "falarem" entre si, mais facilmente poderão interagir uns com os outros -- e nós com eles.

(Um aparte importante: a Alexa não tem suporte em português de Portugal. Já o assistente virtual do Google, que em termos de funcionalidades é muito semelhante, atualmente já tem.)

O que a próxima geração de interconectividade promete é levar este princípio ao nível seguinte, baseando-se em dois princípios:

- Uma internet móvel capaz de atingir velocidades até 100 vezes superiores às conseguidas atualmente pelo 4G;

- A integração completa com os sistemas já existentes, nomeadamente o próprio 4G, bem como o wifi, etc.

Ou seja, não apenas se visa a criação de redes móveis muito superiores às existentes -- de tal forma que, no limite, deixará de fazer sentido usar as atuais tecnologias de voz para fazer chamadas, podendo libertar-se essas frequências para a troca de dados de baixa prioridade, precisamente os dos aparelhos IoT -- como se pretende conseguir interligar tudo o que já hoje é "interligável", numa imensa rede global de dispositivos e serviços.

É neste último ponto que nascem os "contos de terror", a maioria (curiosamente, ou não) pelas mesmas vozes que acham que a Globalização só trouxe males ao mundo -- e depois dizem-no no Twitter, desde os seus iPhones....

Evidentemente, qualquer sistema informático ligado em rede é mais inseguro do que um computador "solitário". E qualquer ponto de acesso à internet é, potencialmente, uma porta de entrada para hackers. Mas esta realidade não tem nada a ver com o 5G. O facto de os aparelhos de IoT estarem entre os mais vulneráveis a ataques deste género é algo já sabido há muito -- um estudo da Ericsson de 2017 já falava nisso extensivamente, só para dar um exemplo (e dezenas de outros há).

A indústria está em constante evolução e tem vindo a melhorar. Vão surgindo soluções de segurança. Claro que, ao mesmo tempo, nenhuma empresa é totalmente imune: o Twitter foi há cerca de dois meses atacado e viu as contas de figuras públicas como Elon Musk ou Bill Gates serem pirateadas; a tecnológica Garmin (dos trackers de desporto) foi vítima de ransomware que demorou quase uma semana a resolver; o governo da Argentina viu em Agosto alguns dos seus segredos serem divulgados porque não pagou aos piratas que lhes invadiram os computadores do Estado; quando Donald Trump anda na campanha eleitoral americana a dizer que os votos por correio são facilmente forjáveis, está a propalar notícias falsas que os seus próprios serviços de espionagem já concluíram terem sido "plantadas" por hackers russos como campanha de desinformação.

É este o mundo em que vivemos hoje. Na realidade, não é fundamentalmente diferente daquele em que (os antigos como eu) vivemos nos anos 70 e 80. "Polícias" e "ladrões" sempre houve, as "armas" e "ferramentas" é que eram outras, mas os objetivos continuam a ser os mesmos.

Vamos deixar de construir uma casa nova, melhor e mais funcional só porque pode aparecer alguém que a queira assaltar? Que disparate!

O que não quer dizer que não compremos a melhor porta blindada que o mercado tenha para oferecer... E muito menos que a deixemos aberta toda a noite.

É aqui que pode, de facto, entrar a questão Huawei, que os EUA andam a tentar convencer o ocidente a deixar de fora dos concursos para o 5G.

Mais do que ser uma gigante tecnológica, a empresa é, literalmente, um braço do governo chinês. Parte do seu conselho de administração é composto por membros do Partido Comunista, nada é decidido sem a devida aprovação política. Não é de todo possível saber onde acabam os interesses puramente comerciais (o lucro) e os interesses puramente políticos (o poder) da sua atividade.

Do estrito ponto de vista técnico, é muito fácil colocar nos chips para o 5G uma "porta das traseiras" em que as comunicações e o controlo das mesmas sejam dominados por um computador central se ou quando este quiser. Sim, parece algo saído de um filme de James Bond, mas é uma realidade.

(Já aqui escrevi sobre uma tecnologia israelita, vendida a governos, que faz o mesmo aos telemóveis. E a qualquer smartphone.)

Não estou a dizer que o governo chinês mandasse fazer isso, através da Huawei. Mas podemos mesmo confiar plenamente que tal não acontecerá?

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