Turismo, manuseie com cuidado

No ciclo de quase década e meia, que em breve se vai fechar, em que trabalhei mais fora que dentro de Portugal, assisti a uma metamorfose do país como destino turístico que não pode ter sido obra do acaso.

Nos primeiros tempos, em 2005, éramos um país que não suscitava grande curiosidade. A maior parte das pessoas não conheciam o país e identificavam, sobretudo os meus colegas mais velhos e britânicos, o sol do Algarve e a paisagem da Madeira, o Mateus Rosé e pouco mais.

Mas lentamente fomos ficando no mapa das intenções de viagem. Começaram a falar-me da qualidade dos vinhos, dos nossos fabulosos pratos de peixe, de cruzeiros no Douro, os vinhos mais sofisticados começaram a ser falados. Pouca gente cá tinha vindo, mas começava uma corrente em que alguém tinha falado da nossa excelência e suscitado curiosidade.

Ano após ano as perguntas foram ficando mais precisas e as intenções de viagem mais sólidas. Nos tempos mais recentes quase todas as pessoas que me falam já cá estiveram e têm uma história para contar. Nem sempre boa, devo dizer. No topo das histórias aborrecidas, os carteiristas, a perda de documentos e a dificuldade de comunicação com os agentes da polícia, bem como o tempo para chegar a certos monumentos. Clássicos dos destinos turísticos, mas não resolvidos com a eficiência esperada. No topo dos elogios, uma monumentalidade inesperada, que contrasta com a expetativa inicial, a qualidade dos restaurantes e os preços, sempre os preços. Mas também o clima, nunca excessivamente quente e nunca muito frio, que permite passear nas cidades sem neve no Inverno e sem desidratar no verão, disfrutar do mar o ano todo.

Se eu acreditasse no acaso diria que Portugal teve uma enorme sorte nos últimos anos. Mas não, se beneficiou das dificuldades de destinos turísticos concorrenciais, da insegurança nas grandes cidades europeias e nas praias do mediterrâneo sul, a sorte dá quase sempre muito trabalho. A visão estratégica da TAP como companhia que liga Portugal e as Américas, a operação de diversas low-costs, a diversificação dos modos de alojamento, a progressiva organização de um cluster de atividade turística jogaram um papel decisivo.

O sucesso do nosso modelo de formação para o setor, dotou-nos de profissionais de qualidade que no passado não tínhamos, os investimentos vultuosos dotaram-nos de infraestruturas significativas.

Não começámos a acumular prémios como destino turístico como acidente. Primeiro foi preciso que falassem de nós como país onde acontecem coisas. Nem sequer o protagonismo que tivemos na área energética é alheio a esse bom nome internacional. A seguir foi preciso que fizéssemos as coisas bem. Alguém anda a promover Portugal e os portugueses, os nossos produtos e destinos, a conectar as densas redes empresariais que formam os destinos turísticos de sucesso.

Esse trabalho de formiga pode não ser visível e não ser reconhecido, mas é um caso de sucesso da chamada diplomacia económica, da articulação entre promoção turística, atração de investimento e dinamização do comércio externo.

Todos os anos chegamos a novos mercados, crescemos como destino e para já resistimos aos sobressaltos - que pareciam ir ter enormes repercussões - do Brexit e da restruturação do setor de viagens de que a falência da Thomas Cook é paradigmática.

Agora já nem sequer me perguntam por Portugal, avisam-me de que compraram bilhete, convidam-me para jantar em Lisboa.

Mas, quando passeio pela baixa lisboeta, por certas zonas do Porto e quando vejo as filas de horas em Belém, para a Torre como para os pastéis, pergunto-me se não era altura de pensarmos se estamos a gerir adequadamente este fluxo.

Não estou nada certo de que a gestão interna das cargas turísticas esteja a ser capaz de fazer a parte seguinte do trabalho, de manter o equilíbrio certo entre residentes e turistas, entre procura turística e oferta de serviços, produtos e atividades. E se rompermos esse equilíbrio instável, assim como entrámos na moda, facilmente podemos sair porque, por muito que nos custe, as nossas âncoras são mais frágeis do que as de muitas cidades europeias concorrentes. Assim como podemos tornar a vida dos residentes tão insustentável que nos vire a todos contra os turistas.

Houve o tempo de pôr todo o vapor na promoção, agora é também o tempo das políticas internas de gestão das cargas turísticas. E receio que estejamos a pedir demasiados ovos de ouro à galinha. A atividade tem que ser manuseada com cuidado, porque não queremos seguramente correr o risco de vir a ser no nosso quotidiano meros figurantes de um parque temático gigante.

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