O coronavírus, o medo e algumas ideias que podíamos aproveitar

As maratonas noticiosas sobre o novo coronavírus com extensas reportagens à porta de equipamentos de saúde e escolas, declarações sucessivas e redundantes em que autoridades de saúde e protagonistas políticos transmitem as mesmas mensagens sobre a situação cansam e acrescentam muito pouco no domínio do esclarecimento da natureza e perigosidade da ameaça de saúde pública que representa. Mais, têm um efeito completamente contraditório, porque criam medo generalizado mas não preparam os cidadãos para tomarem as medidas adequadas. A foto da praia de Carcavelos explica o resultado conseguido melhor que mil palavras minhas aqui poderiam fazer.

A agenda da cobertura noticiosa do coronavírus é inequívoca. Procuram-se culpados - falhas no sistema de saúde, deslizes ou contradições entre técnicos e políticos e desejavelmente alguém que se possa imolar no altar do pânico social, seja por ter sido um doente irresponsável, um médico que errou o diagnóstico ou a prescrição clínica ou um político que tenha seguido o caminho errado. Nada de novo face à história dos medos sociais.

Neste clima de opinião, dificilmente será a ciência a conduzir as respostas e mais tarde ou mais cedo a política extravasará o seu domínio. Há umas semanas, num artigo do New York Times, Harari recordava que a política não é o processo adequado da busca da verdade, mas o de resolver os confrontos de interesses. Para o apuramento da verdade temos o conhecimento científico. E era esse que devíamos estar a procurar agora.

Parece a um leigo que há duas linhas subjacentes ao que nos dizem os clínicos - porque não ouvir extensamente uns e outros? - entre os que defendem respostas gradualistas e proporcionais ao desenvolvimento da pandemia e os que defendem o frontloading do combate à propagação com medidas drásticas que diminuam tendencialmente a zero os contactos sociais que facilitam a transmissão do vírus. Os primeiros preocupam-se em evitar pânicos que consideram desnecessários, querem mitigar os efeitos adversos nas economias e manter operacionais tantos sistemas sociais quanto possíveis, correndo o risco de serem acusados de terem menosprezado a ameaça. Os segundos acreditam que cortarão eficazmente os ciclos de contágio ainda que provoquem disrupção social e económica intensa de curto prazo. Mas este debate entre clínicos não é suficientemente transparente para os cidadãos, correndo o risco de transferir para os políticos uma escolha que deveria ter sido precedida de consensos científicos.

Temo que a transferência do assunto de cientistas para políticos sem consensos geridos nos coloque no pior de dois mundos. A fronteira entre o princípio da precaução e a cedência ao medo irracional é muito ténue. E aquilo a que estamos a assistir é, de um lado, a decisões políticas gradualistas e de outro a dinâmicas dos microdecisores que respondem perante grupos sociais com capacidade de pressão significativa completamente contraditórias, o que desacredita o Estado.

As escolas privadas fecham, inequivocamente porque são extremamente sensíveis ao medo dos seus clientes e lhe respondem e não por conselho ou orientação das autoridades de saúde pública. As públicas não, criando inevitavelmente a ideia de um sistema educativo com dois pesos e duas medidas.

As universidades dão um triste espetáculo de política académica no seu pior, agindo de modo completamente desencontrado para ameaças semelhantes. Na mesma cidade duas instituições de ensino superior têm medidas opostas para o mesmo problema e isto acontece, por exemplo em Lisboa e no Porto.

Nesta situação é a credibilidade e autoridade do Estado quem mais perde. As micropolíticas da precaução conduzidas à margem das autoridades de saúde pública criam a ideia difusa de irresponsabilidade destas perante os cidadãos e esse é um passo na direção de nos deixarmos conduzir pelo medo, o que nunca leva a bons resultados a prazo para as sociedades democráticas.

Mas há um ângulo em que as respostas que estão a ser tomadas face ao coronavírus parece um sinal extremamente interessante de esperança para o mundo. Vejo as empresas a deixarem os seus trabalhadores escolher práticas de teletrabalho, quando não mesmo a encorajá-las. Vejo instituições a cancelar viagens e substituí-las por videoconferências. Vejo escolas a prepararem a grande velocidade dispositivos que estão disponíveis, mas eram subutilizados, para ensino a distância. O coronavírus está a dar-nos incentivos para agir de modo mais adequado ao necessário para avançarmos para uma sociedade descarbonizada e otimizarmos o recurso a um modo de vida com uma pegada de carbono menor. O que eu estou a aprender é que em muitos domínios já estamos preparados para isso e é o conforto do nosso modo de vida que nos está a impedir de o fazer. Oxalá, quando o vírus se for embora fique na organização das nossas vidas algo deste plano de contingência. Porque se continuarmos com o modo de vida anterior, sobrevivemos ao coronavírus mas o planeta não nos sobrevive a nós.

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