Decidir, interagir, cuidar – o futuro do trabalho

O Forum Económico Mundial publica desde 2016 um relatório sobre o futuro do trabalho. O relatório de 2020 saiu recentemente. Baseando-se num inquérito a dirigentes de grandes empresas nas economias avançadas, mantém a previsão feita em 2018 de que em 2025 haverá tantos seres humanos como máquinas a trabalhar, mas é mais otimista que o anterior quanto à redução do volume de emprego que esta transição implica.

A sua previsão aponta para uma redistribuição do trabalho entre humanos, máquinas e algoritmos em que 9% da força de trabalho humana seria desnecessária, mas nas 26 economias que estuda, 85 milhões de postos de trabalho seriam transferidos entre funções e 97 milhões seriam criados.

Depois de as máquinas terem progressivamente diminuído o volume do trabalho na produção, o mesmo efeito está a ocorrer na produção e tratamento de informação. Com máquinas e algoritmos inteligentes, o trabalho não humano progride da ferramenta autónoma para a produção de conhecimento, empurrando os humanos para onde as máquinas estão mais atrasadas, ou seja tudo o que tem a ver com decidir, envolvendo processos complexos que cruzam racionalidade e ética, interagir, que carece de empatia e cuidar, que sendo um trabalho de produção carece de decisões orientadas pelo outro e pela interação.

A nossa regulação económica e social continua a não refletir este novo equilíbrio entre homem, máquina e algoritmo.

Os trabalhadores menos qualificados terão na próxima geração menos oportunidades que na anterior. Daí que seja estratégico reduzir o contingente desses trabalhadores nas nossas forças de trabalho, o que está a ser feito lentamente e apostando essencialmente na substituição de gerações. Mas a velocidade dessa substituição será, tudo o indica, insuficiente face à da transição económica, criando o risco de produção de um vasto contingente de trabalhadores periféricos ou excluídos, de pessoas em risco de pobreza e desfiliação social.

Um trabalho mais baseado na decisão e na interação será também muito sensível às diferenças de desempenho. Ao contrário do paradigma a que chamámos fordista, de trabalho padronizado, em linhas de produção, no controlo e supervisão de máquinas, teremos cada vez mais trabalhadores que se equiparam aos desportistas de hoje, havendo poucos com muito alo rendimento e muitos com rendimentos intermédios. Se gerirmos os salários, as recompensas aos trabalhadores, como acontece hoje com os desportistas, cada trabalhador tenderá a produzir a sua própria marca e teremos algumas carreiras estrelares a par de uma miríade de outras anónimas e desvalorizadas, criando um novo dualismo social, mesmo entre os integrados no trabalho

Estas transformações do trabalho forçam-nos a repensar a história para poder nela obter lições para o futuro. Karl Polanyi, em A grande transformação argumentava que o capitalismo para triunfar teve que criar mercadorias fictícias, sendo uma delas o trabalho, que é uma capacidade humana e que haveria uma tensão permanente entre a tentativa dos mercados de se desincrustarem das instituições sociais e políticas e a capacidade destas para o enquadrar.

O Estado-providência moderno e o seu sucesso no bem-estar de largos segmentos das sociedades contemporâneas resultou desse movimento e correspondeu a um triunfo das instituições sobre o mercado que promoveu a dignidade humana.

Com o trabalho a mudar tanto, essas instituições têm de repensar-se. Teremos de perguntar-nos se a riqueza produzida pelas máquinas e algoritmos deve estar dispensada de contribuir para o nosso bem-estar comum. E isso levar-nos-á a considerar pedir à tecnologia que pague impostos e que contribua para a proteção social.

Teremos também de saber como mantemos vivo os valores da fraternidade e da solidariedade num mundo de trabalho individualizado e altamente competitivo. E isso levar-nos-á à necessidade de repensar as relações coletivas de trabalho e o sindicalismo.

Seremos provavelmente ainda chamados a gerir a existência de um volume menor de trabalho face aos trabalhadores potenciais disponíveis. E isso obrigar-nos-á a repensar o contrato social, pensando novas regras para distribuir o trabalho e os recursos de forma justa.

A alternativa é uma sociedade fragmentada, profundamente desigual e com largos segmentos da população excluídos dos frutos do progresso. Ou seja, embora em termos completamente novos, seria uma sociedade muito mais parecida com a de 1850 do que com a de 1950. E o mundo nesse longínquo século XIX florescia economicamente, mas tinha um terrível lado negro de pobreza e conflitualidade social que ninguém quer ver repetido.

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