O feitiço da Lua

Imagino a comoção do astronauta ao ver pela primeira vez a Terra no céu da Lua. O planeta azul onde tudo o que naquele momento era ser vivo - natureza e seres humanos - existia. O planeta lar

Todos recordamos a frase do primeiro homem a dar um passo na Lua, Neil Armstrong. Menos recordarão a frase do segundo homem a caminhar nela, Buzz Aldrin: "Desolação magnífica!..."

Faz 50 anos no próximo mês que a espécie humana pisou pela primeira vez solo lunar e que pudemos ver, no momento em que os astronautas o viram, através da transmissão televisiva, essa desolação de que falava Aldrin: um deserto de rochas e pedras sem sinal de qualquer tipo de vida. Magnífica, porque era grandiosa a sua desolação, tinha a beleza do que é extremo.

E não tivemos outra dimensão sensorial que não a visão, nem sequer a perceção da ausência de som, a transmissão foi sempre feita com o áudio dos diálogos entre os astronautas e o centro espacial de Houston. O silêncio lunar aumenta a escala de desoladora grandeza da paisagem, a solidão do astronauta no espaço sideral.

Imagino a comoção do astronauta ao ver pela primeira vez a Terra no céu da Lua. O planeta azul onde tudo o que naquele momento era ser vivo, natureza e seres humanos, existia. O planeta lar.

Neste ano também se comemora os 500 anos do início da primeira viagem de circum-navegação. Pela primeira vez na história da humanidade comprovou-se pela experiência de uma viagem que a Terra é redonda, uma esfera.

A circum-navegação e a chegada à Lua são dois momentos ligados pela celebração da descoberta e da consciência do nosso destino comum, o de sermos todos, com todos as nossas vidas e todos os nossos sonhos, uma ínfima parte de uma esfera rochosa coberta de água e vegetação na vastidão negra do espaço.

Esta consciência é hoje crucial para a salvação deste nosso planeta tão ameaçado pela estupidez da nossa espécie, a mesma espécie que teve a inteligência da circum-navegação e da aventura espacial.

Hoje, mais do que nunca, é decisivo que a inteligência humana vença a sua estupidez destruidora.

Quando estava preso pela ditadura brasileira, Caetano Veloso, na cela de uma cadeia, viu pela primeira vez, na capa de uma revista, fotografias da Terra tiradas por um astronauta da missão Apolo e inspirado por essas imagens compôs a canção Terra, que se tornou um hino, suave e dançante, de louvor ao nosso planeta comum.

Passados 50 anos de Caetano e Gilberto Gil terem sido presos, o Brasil tem um presidente eleito que comemora essa ditadura e elogia os seus torturadores. Um presidente que favorece os interesses sem escrúpulos da exploração económica mais predadora das grandes corporações que estão a destruir de forma irremediável e devastadora a maior reserva de diversidade natural do planeta, a Amazónia. Infelizmente, não é o único responsável político a cometer crimes contra a natureza e a humanidade. O pior exemplo vem da nação mais poderosa do mundo.

O nosso país é toda a Terra.

Estamos a discutir trivialidades enquanto o planeta arde, disse Greta Thunberg, a jovem ativista mais mediática do momento, que também se referiu à mobilização imediata que gerou a reconstrução da Catedral de Notre-Dame em Paris após o incêndio, dizendo que a salvação do planeta necessita da mesma mobilização.

A natureza é a mais bela das catedrais e o seu incêndio está longe de estar extinto.
O caminho da desolação na Terra não tem nada de magnífico.

"A Terra é azul como uma laranja", dizia Paul Éluard.
Deixemos à Lua magnífica a desolação e a maravilha de ser o melhor miradouro da Terra.
E de ser na Terra a causa das marés, secreto coração do mar.
E de ser na Terra a mais bela forma de o Sol brilhar, no brilho da Lua a que chamamos luar.

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