Um discurso de fé nos europeus 

Foi uma fortíssima declaração de fé na União Europeia aquilo que Ursula von der Leyen fez nesta manhã, dirigindo-se muito aos jovens. A presidente da Comissão Europeia não só elogiou a cooperação entre os Estados membros no combate à covid-19, desde os corredores verdes quando as fronteiras estavam fechadas até ao repatriamento solidário dos pontos mais remotos do planeta, como declarou que os europeus têm de estar na linha da frente na procura de uma vacina, garantindo que esta será para todos e não apenas para aqueles que a possam pagar. Como realçou, o nacionalismo nas vacinas mata, só a cooperação internacional salvará vidas.

Ou seja, a alemã que há menos de um ano está à frente dos 27 (já foi com Von Der Leyen que o Brexit se consumou) optou por minimizar as falhas de unidade em plena pandemia, notórias quando a livre circulação prevista pelo acordo de Schengen foi suspensa, para realçar tudo o que de positivo foi e tem sido feito, incluindo os mecanismos de financiamento das economias em crise, essenciais para pequenos países como Portugal.

Mas sobretudo desafiou os quase 500 milhões de europeus e os seus líderes nacionais a encabeçar o mundo, no combate à covid-19 (com uma União da Saúde) mas também na luta contra as alterações climáticas e na defesa dos direitos humanos. O mundo tem de mudar, afirmou, e a União Europeia tem de estar na vanguarda dessa mudança, como, por exemplo, a defesa da privacidade nas redes sociais e internet em geral nesta época de Zoom e Teams.

Apontou também o dedo às grandes potências, que com os seus egoísmos põem em causa instituições multilaterais como a OMS (Saúde) e a OMC (Comércio). E depois nomeou mesmo a China, quando criticou a atitude de força de Pequim em Hong Kong e no Xinjiang. Nomeou igualmente a Rússia, lembrando o envenenamento recente do opositor Alexei Navalny. E não esqueceu a violência policial nos Estados Unidos, embora num momento diferente do discurso. Importante foi defender em política externa que a União Europeia passe a decidir por maioria qualificada, para ser rápida e eficaz, especialmente na aplicação de sanções a quem viole os direitos humanos ou o direito internacional.

Von Der Leyen não esqueceu as migrações, admitindo que são um desafio e que têm dividido os 27, mas dando exemplos de casos de sucesso, como o refugiado sírio que se tornou médico. E lembrou que os valores europeus não estão à venda, uma crítica aos governos que tentam controlar a justiça, silenciar os media ou vendem sem critério passaportes.

Relevante também neste discurso, em que tentou esclarecer a sua agenda como presidente da Comissão Europeia, foi a promessa de um salário mínimo europeu e a defesa dos direitos dos homossexuais pela antiga ministra alemã da Defesa, figura muito próxima da chanceler Angela Merkel e que sucedeu ao luxemburguês Jean-Claude Juncker em dezembro de 2019.

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