Quando os portugueses se casavam no Irão

Houve portugueses a casar-se com iranianas no século XVI e a estabelecer-se na antiga Pérsia, contou-me Mohammad Jafar Chamankar, académico que tem investigado as relações entre o Irão e Portugal, velhas de 500 anos, como assinalou nesta semana em Lisboa uma conferência na Torre do Tombo. Esta faceta da miscigenação portuguesa no Médio Oriente é muita vezes relegada para um plano secundário por feitos como a conquista de Ormuz, que fez do golfo Pérsico um mar português durante um século, mas não deixa de dizer muito sobre o peculiar império que, graças ao domínio da tecnologia naval e a uma bravura admirável, o país foi construindo.

Um dia, em conversa com o historiador João Paulo Oliveira e Costa, já tinha sido alertado para essa mistura permanente com gentes de outras latitudes, por exemplo no Brasil, em que os casamentos com índias era tão comuns que o professor da Universidade Nova brincava dizendo que os ingleses tinham uma Pocahontas e nós tantas, tantas, que não dava para contá-las. Nas minhas leituras de história do Brasil, acabei por perceber o valor geopolítico dessas inúmeras Pocahontas: primeiro no Rio de Janeiro, ainda no século XVI, e depois no nordeste, já no século XVII, o domínio português foi desafiado sucessivamente por franceses e holandeses, que recorreram a aliados. Ora, os portugueses também tinham índios a combater nas suas fileiras, mas não eram pagos com quinquilharia; eram os sogros e os cunhados.

Dirão alguns que tudo se resumiu a violência e violações, e que a escravatura esteve sempre presente como pano de fundo, nas Américas, em África, até na Ásia. Certamente que também houve esse lado trágico no contacto dos portugueses com o resto do mundo, mas não se criam cidades dessa forma e a verdade é que no espaço de poucas décadas, em meados do século XVI, os portugueses fundaram o Rio de Janeiro e São Paulo, também Luanda, ainda Macau e Nagasáqui. Desde cedo se falou dos casados, europeus que se casaram com asiáticas e tiveram filhos luso-asiáticos. Olhe-se com atenção para alguns dos biombos nambam no Museu do Oriente, em Lisboa: o artista japonês da época (há 400/450 anos) pintou os japoneses vestidos à oriental, os europeus também bem identificáveis pelas roupas, mas, se os portugueses velhos têm nariz comprido, já os portugueses jovens têm é os olhos rasgados como os das mães. O sucesso do comércio, e da sobrevivência do império, tem muito que ver com essas gentes, portugueses de língua e cultura, mas educados no Oriente, a falar as línguas locais.

O antropólogo brasileiro Gilberto Freyre, cujo lusotropicalismo foi aproveitado politicamente pelo Portugal salazarista, chegou a defender num périplo por universidades dos Estados Unidos que a facilidade de miscigenação se devia ao fascínio dos portugueses pelas princesas mouras, reais ou imaginárias. Afinal, dizia o académico brasileiro, como a sua reconquista terminara muito antes da espanhola, os portugueses tinham passado a mitificar os árabes e as suas princesas, tendo como ideal de beleza não a loira de olhos azuis, nórdica, mas a morena de olhos castanhos, tipo amêndoa, mulher do sul.

Hoje as explicações de Freyre são pouco levadas a sério e mesmo a harmonia racial que se dizia existir no Brasil é posta em causa, mas, se a busca de princesas mouras não existiu, o certo é que o exotismo, fosse das índias ou das indianas, das malaias ou das chinesas, atraiu os colonizadores portugueses de uma forma que nunca aconteceu com, por exemplo, os britânicos.

Em Nagasáqui, contou-me um dia o japonês que era cônsul honorário português que as crianças luso-japonesas foram expulsas um dia em barcos para Macau e Goa por serem vistas pelos xóguns como ainda mais ameaçadoras para a unidade nacional do que o sucesso do catolicismo entre os camponeses e pescadores do sul do arquipélago.

Não sei se é possível ainda hoje identificar descendentes de portugueses no Irão, ou até nos Emirados Árabes Unidos e em Omã, onde chegaram a existir comunidades e onde certos mitos persistem sobre remotos antepassados de algumas tribos. Mas na Ásia do Sul e no Sudeste Asiático, e isto sem cair no erro de contar todos os cristãos com nomes portugueses como descendentes de portugueses (em muitos casos, usam o nome do padre que fez o batismo original na família), abundam os exemplos, alguns bem conhecidos, como os burghers do Sri Lanka (um deles o famoso general Sarath Fonseka), outros surpreendentes, como os luso-birmaneses do atual Myanmar, os bainguis, sobre os quais James Myint Swe (um baingui emigrado no Canadá) escreveu há poucos anos o livro Cannon Soldiers of Burma, sobre os mercenários que deixaram filhos, netos e trinetos naquelas terras. Também na Tailândia uma comunidade que se reclamava de origem portuguesa conseguiu evitar a assimilação total até ao século XX. Um dos seus membros foi Margaret Lin Xavier, a primeira médica do país.

Não há aqui nada de glorioso. Nem sequer de política de Estado, mesmo que Afonso de Albuquerque tenha percebido que promover o casamento dos seus homens com as indianas seria a forma de criar novos súbditos a D. Manuel I. Imitou os conquistadores muçulmanos da Índia, mas a fórmula nunca passou sequer pela mente dos britânicos, que nunca se quiserem misturar, preferindo que as suas mulheres, casadas, também fossem para as colónias com os maridos (opção nunca tomada pelos monarcas portugueses, para não esvaziar o reino).

Na realidade, a miscigenação nasceu em doses variáveis da distância de casa, do desejo sexual, da vontade de ter família, uma descendência. Como no caso dos luso-birmaneses, houve comunidades que surgiram do casamento de mercenários que muitas vezes lutavam por interesses que nada tinham que ver com Portugal ou até eram contrários. Outras resultaram da presença efetiva de Portugal, como os macaenses e os kristang de Malaca. Mas sobretudo a miscigenação foi uma constante, repetida em pontos bem distintos do planeta, uma constante que durou séculos. Comparável talvez só a miscigenação dos espanhóis na América Latina, com o México a ser talvez o expoente máximo, pois até 90% da população pode hoje reivindicar-se simultaneamente azteca ou maia e ibérica.

Que a nossa história, como país, é tão global que nos traz trunfos, é evidente. E, mesmo que esses trunfos relacionais nem sempre sejam bem aproveitados, eles existem, para os negócios, a diplomacia, o turismo, etc. Tal como existe esta tradição de miscigenação e os seus frutos, alguns chegando até hoje. E nem precisamos de procurar só na época dos descobrimentos, lembro-me agora de um açoriano, história contada aqui no DN, que no século XIX emigrou para o Canadá, atravessou o país a caminho do Pacífico e na região que hoje é Vancouver casou-se com uma índia. Chamava-se José Silva, do Pico, mas nos livros de história é Joe Silvey. E mais pitoresco ainda foi eu ser um jovem jornalista e na manhã seguinte às eleições americanas de 1992, que levaram Bill Clinton à Casa Branca, ter de escrever sobre Nighthorse Campbell, um cheyenne do Colorado, o primeiro senador índio em quase um século, como noticiava a CNN. Bem, a mãe de Campbell era a portuguesa Mary Vieira!

Que isto, que uns verão como curiosidades e outros como exaltação patriótica, sirva para nos percebermos melhor enquanto povo. Mas que houve portugueses há meio milénio a casar-se com iranianas, isso é indesmentível, segundo os próprios iranianos de hoje (os gregos de Alexandre também se casaram com persas). Dizem que nessa região costeira do Irão ainda hoje se come uma espécie de caldeirada, caldeirada à portuguesa.

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