Promessa de eleições em 2021, o grito desesperado palestiniano para Biden ouvir

Mahmoud Abbas decidiu dar uma prova de vida ao anunciar eleições legislativas e presidenciais palestinianas em 2021. Uma prova de vida que na realidade é um desesperado pedido de ajuda aos Estados Unidos para que, depois de quatro anos de presidência de Donald Trump, voltem ao tradicional papel de mediadores no conflito israelo-palestiniano.

O problema é a capacidade, e a vontade, do próprio presidente da Autoridade Palestiniana em cumprir a decisão agora anunciada. É que não é apenas da nova administração americana liderada por Joe Biden que uma saída para o impasse palestiniano depende. Israel tem uma palavra decisiva também e, independentemente de quem lidere o país a médio prazo, não é de crer que israelitas e americanos não tentem concertar a reação à iniciativa de Abbas.

Mas ainda antes de se conhecer qual será a reação de Biden, que toma posse na quarta-feira, e de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita que vai ele próprio voltar às urnas em março, convém perceber se a desunião no lado palestiniano é ou não um problema ainda maior.

O Hamas, que controla a Faixa de Gaza, em princípio não se opõe, até porque poderá ver nas eleições legislativas uma hipótese de repetir a vitória de 2006 e nas presidenciais a grande oportunidade para substituir Abbas e sobretudo a Fatah como símbolo máximo da resistência palestiniana.

Ismail Haniyeh, que chegou a ser primeiro-ministro palestiniano e lidera o Hamas, é tido como mais popular do que Abbas e com a vantagem da idade: está prestes a fazer 59 anos enquanto o rival tem 85. Haniyeh tem também mais apelo junto da juventude deserdada dada a sua história pessoal de filho de refugiados nascido em Gaza e de antigo preso e deportado político, um currículo que contrasta com o de Abbas (Abu Mazen de nome de guerra), que nasceu ainda nos tempos da Palestina Britânica em território que hoje é Israel, se refugiou com a família na Síria e no Egito e estudou na União Soviética, juntando-se depois a Yasser Arafat, líder histórico da Fatah e da OLP como um dos principais negociadores internacionais. Apesar dos choques recentes com Israel, Abbas é considerado um moderado, o que nem sempre é bem-visto pelas massas palestinianas, três milhões na Cisjordânia e dois milhões na Faixa de Gaza, aos quais se somam mais alguns milhões de refugiados e seus descendentes espalhados pelos países vizinhos.

Um sinal de que a eleição de Biden traria novidades estratégicas do lado palestiniano tinha sido já dado quando uma semana após a vitória do candidato democrata sobre o republicano nos Estados Unidos a Autoridade Palestiniana anunciou o reinício da cooperação securitária com Israel, cancelada quando Trump promovia o seu plano de paz para a região ignorando qualquer contributo de Abbas. Mas a prova de que é impossível para os palestinianos um corte total com Israel foi ainda antes a colaboração sobre o combate à covid-19, sendo que o próprio Hamas, que continua a recusar o reconhecimento do Estado Judaico fundado em 1948, também tem de manter canais abertos para matérias tão diferentes como o fornecimento de combustível ou assistência médica (12 médicos israelitas há dias estiveram em missão em Gaza no combate à pandemia).

Para ser ouvido por Biden e pela comunidade internacional em geral Abbas tem de poder dizer que fala em nome dos palestinianos, pelo que o regresso da Autoridade Palestiniana a Gaza, como está nos Acordos de Oslo entre Israel e a OLP, é essencial. Com uma vitória em eleições isso seria conseguido, por ele ou outro candidato, mesmo que neste momento nenhum político possa ambicionar ter o peso de prestígio e negocial de Arafat, que morreu em 2004 de novo às avessas com Israel. Mas ainda sem ida às urnas, o simples anúncio de eleições dá já certa margem ao presidente palestiniano, que no que diz respeito a Biden conta com um diálogo previsível muito melhor do que nos tempos de Trump, mas não tão bom como durante a presidência de Barack Obama.

O antigo presidente, do qual Biden foi vice, deixou-se levar pela sua má relação pessoal com Netanyahu e já depois de eleito Trump ordenou em finais de 2016 que o embaixador americano no Conselho de Segurança da ONU não vetasse uma resolução a considerar ilegal a construção de colonatos judeus na Cisjordânia.

Biden manterá a tradicional linha pró-israelita dos Estados Unidos mas tentando promover o processo de paz e a solução de dois Estados herdada de Bill Clinton e dos Acordos de Oslo. Não trabalhará contra a normalização de relações de Israel com países árabes, incentivada por Trump, mas é possível que uma tentativa de trazer o Irão para a mesa de negociações sobre o nuclear atrase o reconhecimento do Estado Judaico pela Arábia Saudita, que deveria seguir-se a Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos.

Para haver eleições palestinianas, contudo, será preciso ainda que Israel autorize o voto dos habitantes de Jerusalém Oriental, oficialmente anexada mas cuja população árabe rejeita a nacionalidade israelita (ao contrário dos 20%, em nove milhões, de israelitas de origem árabe).

Para Abbas e a Fatah, os 300 mil palestinianos da cidade (reivindicada como capital por Israel e pela Autoridade Palestiniana) são simultaneamente uma bolsa de votos importante (tendem a defender um certo compromisso com Israel) e um álibi para evitar umas eleições - se Israel ao contrário do que fez antes não autorizar a participação - que trazem mais incertezas do que certezas: estarão mesmo a Fatah e o Hamas dispostos a aceitar a vontade popular, se implicar perda de poder? Confiarão na vigilância da votação em Gaza e na Cisjordânia por elementos ligados à outra fação? Haverá um parlamento, um governo e um presidente palestinianos com um projeto conjunto para levar à mesa das negociações com Israel tendo Biden como patrocinador? Tudo muito improvável, e do lado israelita também não parece muito lógico que se facilite uma alteração de um statu quo que na realidade tem jogado a favor do Estado Judaico. Além disso, que impacto pode ter a autorização de eleições palestinianas em Jerusalém Oriental no contexto da própria competição política interna israelita?

Jornalista

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