Portugal tem as mais belas bibliotecas do mundo, uma delas sobre rodas

É estranho isto de as estatísticas afirmarem que os portugueses leem pouco e no entanto terem das mais belas bibliotecas do mundo. Digo isto depois de há dias ter visitado uma vez mais a Joanina em Coimbra e relembrando-me de como me impressionou o Real Gabinete Português de Leitura que os emigrantes construíram no Rio de Janeiro, mas também podia dizer isto porque a revista Vogue, na segunda-feira, publicou a sua escolha das "15 mais espetaculares bibliotecas do mundo". Na lista estão a Richelieu, em Paris, a do Congresso, em Washington, mas também a Joanina, a de Mafra e o Real Gabinete, ou seja três portuguesas!

Há outra bela biblioteca portuguesa que convém recordar. Talvez a mais bela de todas, porque foi a mais popular no sentido literal do termo: a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, carrinhas Citroën HY, como a que faz capa neste sábado do nosso suplemento 1864, que percorriam Portugal a levar livros a terras que nem livrarias tinham ou a gente que por muito que quisesse ler não tinha dinheiro para tal. O rosto de felicidade de adultos e crianças que se pode ver nas fotografias dizem tudo. Se algo pode ser chamado de serviço público foi este Serviço de Bibliotecas Itinerantes (SBI), de seu nome oficial, criado em 1958 e extinto em 2002.

Tal como a D. João V são atribuídos os louros da Biblioteca Joanina, deve dar-se o mérito do SBI ao escritor Branquinho da Fonseca. Claro que primeiro que tudo devemos agradecer a Calouste Gulbenkian, o magnata que se apaixonou por Portugal, a Azeredo Perdigão, que convenceu o arménio a fazer a sede da sua fundação em Lisboa , e a José Raposo de Magalhães, o diretor do serviço de educação da Gulbenkian que deu resposta positiva ao SBI. Espero não ser injusto para nenhum nome, afinal esta foi uma época da qual já vão escasseando as testemunhas.

Homenageemos então Branquinho da Fonseca, que a partir de uma experiência anterior como conservador do Museu-Biblioteca dos Condes de Castro Guimarães, em Cascais, avançou com o SBI, e logo em 1959 já dezena e meia de carrinhas percorriam Portugal. Entre os bibliotecários itinerantes contam-se nomes como os poetas Alexandre O"Neill e Herberto Helder, que entre as suas muitas missões tinham o aconselhar livros a quem tinha fome deles mas não sabia como escolher.

António José Branquinho da Fonseca nasceu em Mortágua em 1905 e morreu em Cascais em 1974, era ainda o diretor do SBI (sucedeu-lhe o escritor António Quadros). Porta de Minerva foi o livro que lhe deu nome enquanto escritor, atividade que praticamente suspendeu nas quase duas décadas em que esteve na Gulbenkian. Não sei se o romance de Branquinho da Fonseca alguma vez andou nas bibliocarrinhas, mas li que Filha de Labão, do seu pai, Tomás da Fonseca, chegou a ser proibido de ser divulgado, o que serve bem para lembrar que era num Portugal autoritário, desconfiado do poder dos livros, que o SBI funcionava, o que ainda o valoriza mais.

Por coincidência, a atual sede do DN, depois de 76 anos no Bairro Alto e outros tantos na Avenida da Liberdade, fica nas Torres de Lisboa, cuja morada é Rua Tomás da Fonseca, em homenagem ao republicano que desafiou a monarquia, Sidónio Pais e depois Salazar. Também Branquinho da Fonseca inspirou ruas um pouco por todo o país, mas destaco antes o prémio de literatura apoiado pela Gulbenkian e pelo jornal Expresso que tem o seu nome e é dedicado a jovens escritores e um outro dedicado ao conto fantástico, também com o seu nome, e criado pela Câmara de Cascais..

Um país faz-se de muita coisa, de belas bibliotecas e de livros também. Nunca saberemos bem o que estamos a dever ao SBI.

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