Obrigado, Leslie, por ensinares português aí na América

Gostava de vos apresentar Leslie Ribeiro Vincente, uma luso-americana de New Bedford que está a conseguir que filhos e netos de portugueses aprendam a língua das suas raízes. Falo em apresentar, mas na verdade já aqui escrevi sobre a professora da Discovery Language Academy, numa reportagem feita na primavera de 2017 sobre portugueses nos Estados Unidos. Na altura contei como esta mãe de quatro filhos, que ficou em casa a cuidar da família enquanto o marido polícia garantia o sustento de todos, aproveitou a chegada a adulto do mais novo e voltou a estudar e com tanto entusiasmo que já fez até doutoramento.

"A açoriana que criou quatro filhos e agora é campeã do português" foi o título da tal reportagem. Leslie era a heroína da história, a personagem principal, mas havia outros heróis: o engenheiro Jim DeMello, que já nasceu na América mas fala português fluente, José Soares, empresário que veio do Pico com 14 anos, João Paraskeva, meio português, meio grego, que nasceu em Moçambique, viveu em Portugal e finalmente assentou nos Estados Unidos. Paraskeva, professor na Universidade do Massachusetts em Dartmouth, foi quem incentivou Leslie a prosseguir com os estudos, Soares pagou os livros para as crianças continuarem a aprender português quando tudo já parecia perdido e DeMello abriu as portas do seu DeMello Center, na principal rua de New Bedford, para alojar a Discovery.

Visitar o Museu da Baleia é um bom pretexto para ir a New Bedford, a uma hora de comboio de Boston. É um museu impressionante que conta a epopeia baleeira americana, em parte também portuguesa. No seu Moby Dick, Herman Melville põe três açorianos na tripulação, um deles o arpoeiro, que tem como missão matar a baleia-branca que enche de pesadelos o capital Ahab.

Hoje, já não se caçam baleias, mas dessa época ficaram pelo Massachusetts muitos portugueses. Vieram depois novas levas, na sua maioria dos Açores, mas também do Algarve, como Liliana de Sousa, nascida em Olhão e criada em Provincetown, que todos os anos ali organiza o festival português. Ou nascido em Nampula, no Moçambique colónia, João Caixinha, hoje coordenador do ensino de Português nos Estados Unidos.


Nesta terça-feira 5 de maio celebra-se o primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa e, por isso, este editorial e vários artigos são dedicados a um dos idiomas mais falados no mundo. Luís Faro Ramos, presidente do Instituto Camões, conta em entrevista que emocionou-se ao ouvir em Timor uma missa em português, língua que era do colonizador, tornou-se depois a da resistência à Indonésia e acabou por se tornar símbolo de unidade nacional.

Pensei que episódio me teria marcado também desse género e hesitei entre a professor japonesa de português fluente que conheci em Tóquio e sabia tudo sobre os descobrimentos ou o funcionário da embaixada em Islamabad, de família goesa que se instalou no atual Paquistão ainda na era colonial, falante impecável do português mas que nunca tinha visitado Portugal. Mas, se calhar, devia falar da senhora algarvia que numa pastelaria em Provincetown me perguntou se queria um pastel de nata ou uma pata de veado. Ou quando, noutra ponta da América, em San Diego, Idalmiro da Rosa, nosso cônsul honorário, questiona se prefiro uma Sagres ou um Sumol de ananás.

Bem, se calhar estou a misturar a língua portuguesa e Portugal. E hoje a língua portuguesa é tanto nossa como dos angolanos, dos moçambicanos ou dos brasileiros. É na América Latina que está o grosso dos quase 300 milhões de falantes; e no futuro, África dará um enorme contributo para os 500 milhões de lusófonos previstos em 2100. Então talvez deva dizer que achei incrível um dia chegar à ilha de Soga, na parte não turística das Bijagós, e encontrar um enfermeiro guineense ali nascido com quem conversei como se estivesse num café da minha Setúbal. Quem fala diversas línguas sabe bem que não há melhor forma de chegar ao coração de alguém. Nisso o inglês tem desvantagem. Quem o aprende como segunda língua tem uma visão dele quase utilitária, e não é por acaso que o filósofo francês Bernard-Henri Lévy costuma dizer que a cultura geral começa depois do inglês. Como eu gostava de saber metade de croata como meu amigo Ivica sabe de português!

Inglês como língua franca mundial, mandarim como língua de um sexto da humanidade. O português anda pelo quinto, sexto, sétimo lugar entre as línguas mais faladas. As contas são complicadas por causa da demografia galopante de alguns países, também porque há línguas que são oficiais mas, na realidade, pouco faladas. De qualquer forma, sobre o português, há algo que se pode dizer em termos comparativos: há quase 30 vezes mais falantes espalhadas pelo mundo do que gente em Portugal. Nem a Inglaterra nem a Espanha podem reivindicar algo comparável para as suas línguas.

Graças a Leslie, e aos muitos professores de Português espalhados desde a Extremadura espanhola até cidades chinesas como Xangai, a língua que se convencionou chamar de Camões - mas é também de Jorge Amado, Pepetela e Germano Almeida - vai continuar a ganhar falantes. A diferença é que os de New Bedford já pequeninos vestem a camisola da seleção nacional e gritam pelo madeirense Cristiano Ronaldo, um fabuloso herói à medida dos nossos tempos para promover Portugal e a língua portuguesa.

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