O vírus até as eleições infeta

Se há matéria em que os britânicos podem ser o exemplo é o jogo democrático, que praticam há séculos mesmo que o sufrágio universal só tenha chegado em 1928 (para todos os homens e todas mulheres com mais de 21 anos). Por isso terem logo que pandemia começou a afetá-los decidido adiar um ano as eleições locais de maio deve servir de modelo.

Os franceses, pelo contrário, preferiram manter as eleições municipais em março e o resultado foi uma fraca participação e o adiamento da segunda volta, deixando agora cidades com maires já reeleitos (os que ganharam logo à primeira), maires à beira de ser reeleitos e maires à beira de deixar de o ser. E o futuro destes dois últimos casos até pode depender agora de como se mostram competentes ou não a combater o coronavírus. Alguns até foram infetados e estão doentes.

Sim, manter ou adiar eleições deveria resultar das condições de saúde pública, mas é inevitável que os cálculos de ganhos políticos entrem na equação. Uma vez mais os britânicos aqui estão de parabéns, com a decisão do primeiro-ministro Boris Johnson, um conservador, a ser respaldada pelos líderes trabalhista e liberal. E não se diga que em causa estava só uma centena de cidades e cidadezinhas, pois também o mayor de Londres seria decidido.

Aqui e acolá o debate sobre o adiantamento de eleições tem vindo a ser feito. Na Etiópia, as muito aguardadas eleições gerais de agosto acabam de ser adiadas, um anúncio feito pelo primeiro-ministro Abiy Ali, que ganhou o Nobel da Paz em 2019 tanto por pôr fim à guerra com a Eritreia como por prometer democracia a sério no grande país africano. Já na Coreia do Sul vão ser mantidas as legislativas de 15 de abril, com o governo a ser agora mais avaliado pelo excelentes resultados no combate à pandemia (daí a ida às urnas manter-se) do que pela política de normalização com a Coreia do Norte, que era a grande bandeira do Partido Democrático do presidente Moon Jae-in.

Na Polónia, o PiS, o partido conservador no poder, quer manter as presidenciais em maio mesmo que a lei eleitoral tenha de ser mudada para permitir o voto por correio de toda a população. Claro que a oposição contesta, mesmo que nenhum dos seus candidatos tenha já renunciado a ir a votos no meio da pandemia, e um dos parceiros da coligação governamental esteja também desagradado com a ideia, que poderia até violar a Constituição.

O PiS, liderado nos bastidores pelo antigo primeiro-ministro Jaroslaw Kaczynski, quer que as presidenciais se realizem porque a situação económica antes da pandemia favorecia a reeleição de Andrzej Duda, um seu protegido. E mesmo estas primeiras semanas de resposta governamental também têm sido positivas, sobretudo por comparação com outros países europeus em termos de infetados e de mortes, o que joga a favor do candidato conservador, que devido às suas funções presidenciais é o único a fazer algum tipo de campanha. Mas umas eleições adiadas para o fim da pandemia, num cenário de eventual crise económica, poderia desfazer todos os planos de Kaczysnki, pois para os polacos desde o fim do comunismo o crescimento do PIB tem sido constante e mesmo durante a crise de há uma década conseguiram escapar à recessão.

Voltando aos britânicos, não é a primeira vez que adiam eleições, basta pensar que em 2010, por causa da febre aftosa que ameaçava o gado, protelaram também uma ida às urnas locais. E durante a Segunda Guerra Mundial (tal como na Primeira) só voltaram a ter eleições gerais depois de o conflito ter terminado na Europa, aquelas fantásticas em que Winston Churchill perdeu apesar de ter liderado a resistência aos nazis e ganho a guerra.

A tradição na outra grande potência anglo-saxónica é diferente. Não se adia nunca eleições nos Estados Unidos. E se durante as duas guerras mundiais isso pode ser justificado por o conflito, tirando o ataque japonês ao Havai, não atingir território americano, já a decisão de Abraham Lincoln manter as presidenciais de 1864, em plena Guerra Civil Americana, diz muito sobre o peso da tradição.

Neste ano, a 3 de novembro, estão marcadas presidenciais nos Estados Unidos e ninguém fala de um possível adiamento, provavelmente porque acreditam que daqui a oito meses o pior da pandemia já terá passado. Mas as primárias democratas o vírus tem perturbado, e muito, dificultando perceber se será mesmo Joe Biden a tentar desalojar o republicano Donald Trump da Casa Branca. Com a economia a vir abaixo e o desemprego a subir, o certo é que a América que irá votar não estará igual à que existia antes de o coronavírus a atingir e é incerto como tal se refletirá na votação.

Já Portugal tem regionais nos Açores em outubro e presidenciais em janeiro do próximo ano. Esperemos que não tenhamos de hesitar entre a opção britânica e a francesa, que tudo que diz respeito ao vírus esteja sob controlo antes do outono e que a vida em democracia prossiga rotineira depois destes tempos únicos de estado de emergência e afins.

Mas não nos surpreenda que futuras eleições por esse mundo fora venham a tornar-se referendos sobre como cada líder lidou com as crises, a de saúde mas também a económica. E não faltará, basta ver Marine Le Pen em França e Matteo Salvini em Itália a atacar o desempenho dos seus governos, partidos populistas a tentar transformar em votos as frustrações dos povos, que serão muitas.

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