O refúgio de boémios e gays americanos em terra de portugueses

Está cheia de bandeiras de Portugal a rua principal de Provincetown. Acabei de ver no Facebook da minha amiga Liliana de Sousa, nascida no Algarve mas que cresceu naquela cidadezinha americana, junto ao famoso Cape Cod, que tem uma história muito, muito especial e não é nada que tenha que ver com o bacalhau (Cod!).

Se hoje fosse 4 de Julho, festa nacional dos Estados Unidos, lembraria que foi ali que os peregrinos no Mayflower primeiro desembarcaram em 1620, depois decidindo prosseguir para Plymouth. Mas é Dia de Portugal e Provincetown ou P-Town deve tanto, tanto aos portugueses que ainda agora, além das bandeiras, há pastelarias que vendem desde as malassadas aos pés-de-veado, passando pelos inevitáveis pastéis de nata. Falo do que vi, pois um dia, com Liliana como anfitriã, fui à Commercial Street e entrei na Portuguese Bakery de Arnaldina Costa Ferreira, olhanense como a minha amiga, há décadas na América também, mas sempre com Portugal no coração (e não estou a ser lamechas).

Liliana, que vive em Boston, organiza sempre o Provincetown Portuguese Festival, este ano, como tudo, afetado pela maldita da pandemia. Foi graças a ela que descobri que a partir do século XIX este recanto do Massachusetts foi atraindo cada vez mais imigrantes portugueses, muitos deles dos Açores, mas não só. Pescadores de início - e continua a haver a tradição da bênção da frota - foram agarrando outras profissões à medida que se americanizavam. Também foram soldados quando foi preciso lutar pela pátria adotiva, e vi lá um monumento aos caídos na Primeira Guerra Mundial cheio de nomes luso-americanos como Cabral, Ferreira, Nunes, Henriques ou ainda Perry (Pereira).

Dois terços de portugueses ainda antes de meados do século XX teria P-Town. Numa época em que os grandes artistas da América ali começaram a se instalar porque a vida boémia era possível, nada do puritanismo de outras partes dos Estados Unidos. Eugene O"Neill, Tennessee Williams, Edward Hopper, Jackson Pollock ou Norman Mailer ali viveram, ali escreveram, ali pintaram. Os portugueses, católicos mas tolerantes, do género de dizerem que cada um sabe da sua vida, eram os vizinhos ideais para tais figuras.

Depois dos boémios vieram os gays, e digo gays e não homossexuais porque a comunidade LGBT que se instalou em P-Town é alegre, festiva, exuberante, descontraída na afirmação da sua sexualidade. E lá foram aprendendo a viver com os portugueses e os portugueses com eles.

Liliana contou-me isto, como me contou a história de Manuel Zorra, ou Many Zorra, que era do bando de Al Capone e ganhou muito dinheiro a contrabandear whisky e rum no tempo da Lei Seca. E se Zorra talvez exagerasse nas suas aventuras, sobretudo quando velhote regressou ao Algarve e contava aos jornalistas mil peripécias, a verdade é que escreveram um romance na América sobre ele, The Sea Fox, The Adventures of Cape Cod"s most Colorful Rumrunner. Também há livros que confirmam esta tolerância portuguesa em P-Town, mesmo que entre a vasta maioria que fechava os olhos à vida dos boémios forasteiros houvesse os que os criticavam e uns poucos que até queriam ser como eles, não esquecer que eram gente rica.

Quando fui a Provincetown, no âmbito de uma série de reportagens patrocinadas pela FLAD, vi muitas bandeiras coloridas da comunidade gay misturadas entre as portuguesas. Foi aí que Liliana me explicou a crescente mistura, e a participação conjunta no festival português, e agora cito a reportagem feita em 2017 e o que a minha amiga disse: "os gays querem participar no desfile e nós não temos nada contra. Mas pedimos que se vistam com as cores de Portugal, pode ser até uma T-shirt. E não tem havido problemas. São pessoas com muita educação, que gostam muito de cá viver, mesmo que já não precisem como antes de um refúgio". Na altura não me lembrei, mas agora escrevo: Portugal legalizou o casamento homossexual em 2010, cinco anos antes dos Estados Unidos a nível nacional e no mundo são apenas uma trintena os países nessa situação.

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