Na nova guerra fria entre América e China a parte mais fraca ainda é a asiática

Depois de se ouvir o discurso de Donald Trump na ONU e a resposta de Xi Jinping no mesmo palco (neste ano virtual, por culpa da covid-19), uma guerra entre Estados Unidos e China, consequência do desafio do país asiático à tradicional supremacia global americana, parece cada vez mais difícil de evitar, resta saber se será quente ou fria, como durante o meio século de rivalidade entre a América e a União Soviética.

Mas se no campo económico o poderio chinês se aproxima cada vez mais do americano, com a crise da pandemia a acelerar o processo por prejudicar mais o PIB dos Estados Unidos, já no campo militar a vantagem de Washington sobre Pequim é ainda assinalável, e não só porque os orçamentos de defesa têm uma relação de mais de dois para um e os 740 mil milhões que Donald Trump pediu ao Congresso que aprovasse para 2021 aumenta esse diferencial para três para um.

A favor dos Estados Unidos, num duelo com a China sobre quem será a próxima potência hegemónica, está a sua rede de alianças militares, desde a NATO até aos pactos de defesa com o Japão, a Austrália ou Israel. Também a clara supremacia em termos de porta-aviões, forma por excelência de projetar força, por agora 11 americanos contra dois chineses nos oceanos e mares. E, claro, a esmagadora vantagem americana sobre a China em termos de arsenal nuclear, campo em que a Rússia, herdeira da União Soviética, ainda se mantém como única rival de peso dos Estados Unidos (1600 ogivas ativas cada).

Para reduzir a desvantagem nas três áreas citadas acima, a China tem procurado parceiros além-mar (já tem uma base militar no Jibuti, também outra na Birmânia e negoceia facilidades em portos do Sri Lanka e do Paquistão), está a construir um terceiro porta-aviões e, segundo denúncia do Pentágono, planeia duplicar o seu arsenal de ogivas nucleares (hoje terá 200/300).

O facto de o PIB chinês ir crescer em 2020 (2,7%) o americano descer (-4,6%) só acelera uma certeza de médio prazo: a ultrapassagem dos Estados Unidos pela China como maior economia mundial, talvez ainda nesta década, depois de em 2010 o ultrapassado ter sido o Japão, agora número três.

Ora, o Japão tem muito que ver com esta competição América-China, como aliás têm uma série de vizinhos dos chineses. Uma das grandes vantagens para os Estados Unidos durante a Guerra Fria foi ter as fronteiras seguras, algo que a União Soviética não podia dizer. É uma vantagem histórica dos americanos, vinda de séculos passados.

Com o Canadá, ainda sob domínio britânico, o último conflito foi na guerra de 1812-1814 e os limites nos Grandes Lagos não só permaneceram inalterados como as águas destes foram desmilitarizadas. Assim a mais longa fronteira partilhada por dois países (quase nove mil quilómetros) é pacífica há 200 anos. E o México, vizinho do sul, depois de severamente amputado de território na guerra de 1846-1848, deixou também de ser uma ameaça, mesmo que na Primeira Guerra Mundial um célebre telegrama alemão incentivasse a uma reconquista de Texas, Arizona, Novo México e Califórnia.

Pelo contrário, a China está num meio hostil. Ser o Império do Meio, ao qual os outros países prestavam vassalagem, não impediu que por duas vezes povos vindos do norte (mongóis no século XIII e manchus no século XVII) tivessem conquistado a China e imposto dinastias. E a invasão japonesa na primeira metade do século XX, que veio a somar-se a uma prévia semicolonização europeia, evidenciou ainda mais o círculo de rivais que rodeia a China até hoje. Se olharmos apenas para o período pós-1949, ou seja China comunista, houve conflito com Coreia do Sul, União Soviética/Rússia, Índia e Vietname. E tirando a Coreia do Sul, hoje país aliado dos Estados Unidos mas historicamente com povo próximo do chinês, persistem quase todas as tensões do tempo da Guerra Fria: a Rússia é um aliado de conveniência mas um rival geopolítico, a Índia um adversário nos Himalaias como se viu em recentes choques, o Vietname um país comunista mais disposto a colaborar com americanos do que com chineses, sobretudo quando estes lhe cobiçam ilhas. Mesmo as Filipinas, que hesitam entre as órbitas chinesa e americana, lembraram há dias que o tribunal internacional de Haia lhes deu razão na disputa territorial com a China no mar do Sul da China (um nome que Pequim quer tornar literal).

E há ainda a questão de Taiwan, a ilha onde os nacionalistas de Chiang Kai-shek se refugiaram em 1949 depois de derrotados pelos comunistas de Mao Tsé-tung. Se o fundo étnico e cultural é sem dúvida chinês, já a experiência histórica de colonização japonesa e a tradição democrática pós-1995 alimentam um desejo de caminho próprio dos taiwaneses. Com o partido independentista no poder, mesmo não arriscando dar o passo de rutura oficial com a China, Taiwan tem reforçado a sua ligação aos Estados Unidos, aproveitando a vontade de Trump de contrariar Xi.

Mesmo na Ásia Central, mundo túrquico-mongol onde a China não é bem vista mas é bem acolhida por causa do poder económico, está por avaliar o impacto negativo do combate ao extremismo islâmico no Xinjiang, denunciado como repressão da minoria uigure.

Mesmo que seja mais visível no confronto Estados Unidos-China assumido por Trump (mas iniciado por Barack Obama), a pressão americana no campo das tarifas e das tecnologias (5G), ou seja a faceta económica, este contexto territorial hostil para o país liderado por Xi é um fator que qualquer inquilino da Casa Branca (e Joe Biden se for eleito não será neste campo tão diferente assim) tentará aproveitar.

Não será difícil aos Estados Unidos pressionar o Japão a gastar mais do que o atual 1% em defesa, mesmo contrariando a Constituição pacifista imposta após a Segunda Guerra Mundial. Shinzo Abe estava disposto, veremos o que fará o seu sucessor, mas em curso está a transformação de um porta-helicópteros em porta-aviões. Na mesmíssima lógica, não será difícil aos Estados Unidos aproveitar a súbita desconfiança da Austrália em relação à China e às suas pretensões no Índico e no Pacífico. Um sinal importante, aliás, destinado à China, foram os recentes exercícios navais a juntar americanos, australianos e japoneses.

Demasiado complexa esta nova guerra fria? Sim, até porque com o seu projeto Uma Faixa, Uma Rota a China procura longe de fronteiras os aliados que escasseiam junto delas. E com o seu capitalismo de Estado, mesmo quando em teoria é o setor privado a investir, vai-se tornando ator global, recetivo sobretudo a alianças com países às avessas com os Estados Unidos.

Mas a América decidiu que a ascensão da China, para não ser imparável, tem de ser contrariada já e em força. Pelo que já se viu, também, mesmo que a guerra seja fria como a outra, a China será um adversário bem mais duro do que foi a União Soviética.

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