Brincar com a ciência? Só o Sr. Feynman...

«Está a brincar, Sr. Feynman!» é um daqueles livros ditos de ciência (mas muito mais do que isso) que marca qualquer jovem. Está cheio de lições de vida, dadas da forma mais despretensiosa possível. Li-o na primeira edição portuguesa, em 1988 ou 1989, em vésperas de entrar para a universidade, e fiquei agora agradado que continue a atrair as atenções das novas gerações, tanto que teve direito a quarta edição revista por Carlos Fiolhais, que sucedeu a Guilherme Valente à frente da coleção Ciência Aberta, da Gradiva.

Richard Feynman foi um dos mais brilhantes cientistas do século XX, vencedor do Nobel da Física em 1965. Judeu nova-iorquino com raízes no Império Russo, mas ateu convicto na idade adulta, foi tão precoce no brilhantismo que aos 25 anos integrou o Projeto Manhattan, para construção da bomba atómica, ao lado de figuras como o americano Robert Oppenheimer, o italiano Enrico Fermi ou o dinamarquês Niels Bohr, espécie de união internacional científica contra o nazismo. O alemão Albert Einstein só lá faltou porque o pacifismo e as tendências socialistas geravam dúvidas no Pentágono, embora também tenha usado o imenso intelecto para apoiar o esforço de guerra da pátria adotiva.

Talvez a forma mais sintética de descrever Feynman seja "inteligência fulgurante", usada por Onésimo Teotónio Almeida no prefácio à primeira edição portuguesa, que surgiu três anos depois da original, de 1985.

Já nem me recordava, antes de pegar nesta nova edição, que foi Onésimo a sugerir a Guilherme Valente a tradução do livro. Digo Onésimo quando me refiro ao ilustre professor português em Brown porque sei bem que um nome próprio assim se sobrepõe ao conjunto e também porque em tempos o visitei em Providence para uma reportagem sobre luso-americanos e nos passámos a tratar pelo nome. E não posso deixar de confessar que sou grande admirador de toda esta gente de que tenho falado, agradecendo sobretudo a Guilherme Valente pela Ciência Aberta e livros como este de Feynman, também O Polegar do Panda, de Stephen Jay Gould, ou Cosmos, de Carl Sagan. Noto que estava prestes a entrar na universidade, indeciso ainda entre Comunicação Social, Direito e História, e não para alguma área das ditas ciências puras.

«Está a brincar, Sr. Feynman!» resulta de histórias recolhidas pelo amigo Ralph Leighton em conversas com o Nobel. E não são apenas para candidatos a físicos. O que ali está são as tais lições de vida, desde o apego ao estudo até às grandes questões éticas, os desafios profissionais, mas também os dilemas que qualquer jovem vive; como os do próprio Feynman quando conta como tentava estratégias para conseguir namorada ou como responder a provocadores bêbedos, temas de que me recordo bem ou não tivesse 18 anos quando o li esta quase biografia do cientista formado no MIT e Princeton e que foi professor em Cornell e no Caltech.

Numa época em que alguns insistem em desvalorizar a ciência, seja no que diz respeito ao aquecimento global seja sobre a pandemia, ler Feynman é perceber quanto trabalho, quanto esforço, está por trás do progresso científico. Mas é ao mesmo tempo um convite a que ninguém, seja em que área estude ou trabalhe, deixe de ler sobre física, biologia ou astrofísica. Felizmente, há gente genial que sabe explicar de forma simples e até divertida, como Feynman, Gould ou Sagan e outros que lhes seguem o exemplo, como o "nosso" Fiolhais.

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