A superpotência, a potência emergente e a potência hesitante

Se alguém duvida de que a Europa um dia governou o mundo, esqueça os mapas dos impérios e pense nas línguas mais faladas hoje. Tirando o mandarim e o hindi, nos seus bastiões, são o inglês, o espanhol, o português e o francês. Quem domina estas línguas viaja à vontade nas Américas do Alasca até à Patagónia, por África e Médio Oriente, no Sudeste Asiático e na Oceânia também. E com o inglês abrirá portas não só na Índia como na China e no Japão, dos raros que escaparam à colonização.

Claro que Portugal e Espanha estão muito longe do poderio passado, e mesmo França e Reino Unido lutam por manter o estatuto de potências, ainda garantido por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e um arsenal nuclear, mas do ponto de vista económico cada vez mais ameaçado. O PIB americano é oito vezes o francês ou o britânico, o chinês também já os ultrapassou e muito. E mesmo a Alemanha, que entrou pouco na disputa colonial mas mostrou uma força impressionante no século XX a ponto de iniciar duas guerras, hoje é apenas quarta economia mundial e uma média potência militar.

Contudo, o ocaso europeu pode ser contrariado, sem saudosismos imperais, se a União Europeia fizer um dia justiça ao seu nome. Se pensarmos nos 28, o PIB europeu aproxima-se do americano e é superior ao chinês, as despesas militares também são tremendas (acima da China), e se pensarmos no softpower, a Europa tem 343 das mil melhores universidades mundiais, contra 206 dos Estados Unidos e 132 da China.

Será que com a passagem a 27, dentro de uma semana, com o Brexit, este poder da União Europeia sofre um duro golpe? Não tão obviamente como pode parecer: claro que o PIB europeu descerá de 18,7 biliões de dólares (os trillions anglo-saxónicos) para 16 biliões, mas mesmo assim será maior do que o chinês, e no que diz respeito ao orçamento militar a desvantagem em relação à China será mínima. E há que ter em conta que tanto pela geografia como pela partilha de valores, mesmo de fora, o Reino Unido não deixará de fazer frente comum com a estratégia da União Europeia numa razoável maioria de assuntos.

O que é certo que resultará da decisão de Londres de deixar de ser membro ao fim de 47 anos é o regresso em força do eixo Paris-Berlim, um reassumir obrigatório de liderança por parte da França e da Alemanha, não só dois dos fundadores como também os países que hoje mostram governantes mais empenhados em salvar o projeto europeu. E é simbólico que agora se tenha assinalado o aniversário do Tratado de Aachen, que confirma o histórico Tratado do Eliseu de 1963.

O presidente Emanuel Macron e a chanceler Angela Merkel, com mais a uni-los do que a dividi-los se formos além de alguns excessos verbais, terão agora de assumir sem complexos esse protagonismo tradicional do eixo franco-alemão, congregando apoios naturais, como o de Portugal. Mas além de líderes convictos, a União Europeia, para falar a uma só voz (única forma de ser ouvida), terá de rever regras de funcionamento. E numa altura em que da América à China, passando pela Rússia, não falta quem tente tirar proveito das suas divisões pressionando os Estados médios e pequenos, o mecanismo de decisão em política externa tem mesmo de ser debatido.

Será aceitável ou não avançar com decisões por maioria qualificada, em especial se os valores europeus da democracia, dos direitos humanos e a defesa do direito internacional estiverem em jogo? Aqui está algo para substituir urgentemente o debate sobre o impacto do Brexit.

Artigo publicado originariamente na edição impressa do DN de 25 de janeiro

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