Juan Carlos: corrupto ou campeão da democracia?

Javier Cercas escreveu no El País de domingo que "a alternativa racional em Espanha não era escolher entre monarquia ou república, mas sim entre melhor ou pior democracia". O escritor intitulava a sua crónica "O tabu do rei" e falava desse Juan Carlos que, envolvido numa sucessão vertiginosa de escândalos, primeiro teve de abdicar para o filho, depois renunciar a atividades oficiais mesmo como rei emérito e agora até parte para o exílio.

Cercas não é um historiador, mas publicou por ocasião dos 30 anos do golpe falhado do 23-F o extraordinário Anatomia de Um Instante, onde corroborava a velha tese de que Juan Carlos (com o imberbe futuro Filipe VI ao lado) travara os golpistas com a sua ordem via TVE de regresso aos quartéis, mas também enunciava os erros prévios do monarca, os quais tinham dado a pensar aos saudosistas do franquismo que naquele ano de 1981, seis anos depois da morte do generalíssimo, a democracia era ainda reversível em Espanha.

O tabu de que Cercas fala no El País era o silêncio de todos, desde políticos a jornalistas, sobre os pecadilhos de Juan Carlos. Pecadilhos que se foram transformando em escândalos, primeiro relacionados com histórias de amantes e de vida luxuosa (como ir a uma caçada a elefantes no Botswana quando o desemprego entre os espanhóis batia recordes), depois já envolvendo suspeitas de ter fortunas ocultas em paraísos fiscais. E porque se calava tanta gente sobre Juan Carlos? Porque a Espanha lhe deve muito. Muito mesmo.

Cercas, como todos com uma visão objetiva da história, valoriza a forma como Juan Carlos, treinado por Francisco Franco para ser um sucessor fiel (coisa que o conde de Barcelona, pai de Juan Carlos, exilado em Cascais, não garantia), apoiou a transição democrática, arriscando tudo para ser um monarca constitucional e não um rei-ditador, figura bizarra numa Europa Ocidental em que depois do 25 de Abril em Portugal a democracia era a regra. Muitos republicanos agradeceram a Juan Carlos tornando-se juancarlistas (mas não monárquicos) e até os comunistas, por via de Santiago Carrillo, perceberam que aceitar um rei era garantir a democracia.

Hoje o independentismo de boa parte dos catalães, assim como a reação macho-nacionalista que explica o Vox, faz duvidar dos méritos da Constituição de 1978, que enterrou de vez o franquismo. Mas é essa Constituição, negociada ao pormenor entre ex-franquistas de várias tonalidades e PSOE, entre catalães e bascos e também comunistas, que fez da Espanha o colosso que é hoje, forte acima de todas as crises, democrática obviamente. E Juan Carlos, apoiando a iniciativa de Adolfo Suaréz, foi o padrinho desse texto de compromisso, às vezes criticado por garantir, como dizem os espanhóis, café para todos, mas alicerce da democracia espanhola, ao ponto de ser com base nela que o antigo rei poderá ter de responder perante a Justiça.

Há uns meses, quando Juan Carlos se retirou da vida pública, escrevi que mesmo com os escândalos às costas era um rei, pelo passado democrata, de quem até um republicano se podia orgulhar. Novos factos vieram a lume e é difícil não achar que hoje Juan Carlos envergonha o filho, também a neta Leonor (futura rainha?) e os espanhóis em geral. Como pode, pois, ser admirado por um republicano português? Digamos que as pessoas têm um percurso, e devem ser avaliadas por ele no seu todo, não só pelos erros.

Graças a Juan Carlos, e ao seu sentido de Estado em 1975 após o velhíssimo Franco vencedor da Guerra Civil morrer, os espanhóis agora chocados com tanto escândalo, tanto dinheiro oferecido por xeques e emires a troco de influências várias, podem escolher livremente entre monarquia e república, pois a democracia, essa, é uma certeza, lutem sim para que seja cada vez melhor.

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