Para acabar com o cinema em Portugal

Por princípio, evito comentar a actualidade cinematográfica em função da minha própria experiência enquanto jornalista e crítico. Ainda assim, perante a carta das empresas distribuidoras de cinema, associadas da FEVIP, dirigida ao ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital, permito-me dar conta de um ponto de vista pessoal: considero o cinema dos EUA uma importantíssima área de produção, certamente com muitos contrastes e diferenças de valor; na prática, ao longo das décadas da minha actividade profissional, desde as atribulações temáticas e estéticas dos anos 70 até ao presente, sempre encontrei na produção americana - dos grandes estúdios aos mais remotos independentes - muitos dos títulos mais fascinantes do cinema de cada época.

Desde "vendido" ao "imperialismo" até "carrasco" do cinema europeu (e também o contrário, curiosamente...), isso tem-me valido a descoberta das mais exuberantes formas de estupidez que, obviamente, não justificam qualquer perda de tempo. Existem, é um facto - e possuem imenso poder mediático e social.

Neste caso concreto, e uma vez que a carta da FEVIP faz depender o reequilíbrio do mercado da mais que provável importância da estreia de Tenet, de Christopher Nolan, em julho, não tenho dúvidas em acrescentar, ainda em tom pessoal, que se trata de um título que aguardo com enorme expectativa. Mais do que isso: parece-me, desde já, claro que Tenet está vocacionado para marcar a segunda metade do ano de 2020, tal como Mank, de David Fincher, ou West Side Story, de Steven Spielberg.

Dito isto, creio que podemos e devemos confrontar a FEVIP com o relativismo das suas próprias considerações, a começar pelo facto de haver distribuidores e exibidores que, creio, tendo em conta calendários já anunciados, não se reconhecerão nas respectivas argumentações. Bem sei que, à semelhança de outras conjunturas em que, melhor ou pior, se tem reflectido sobre a distribuição/exibição em Portugal, as palavras que se seguem podem ser manipuladas no sentido de sugerir que se trata de demonizar a FEVIP e, nessa medida, a enorme massa de trabalhadores das respectivas empresas. Seja - como salutar contraponto, vale a pena acreditar que cada leitor não desistiu de se informar e pensar pela sua própria cabeça.

Acontece que, como se prova, as forças dominantes do mercado cinematográfico português foram evoluindo através de um parâmetro também dominante, quase único e unívoco. A saber: toda a sua estratégia de distribuição, exibição, rentabilidade e marketing passou a ser pensada, programada e organizada apenas e só através dos "blockbusters" americanos. No que, convenhamos, não se distinguem muito do que tem sucedido nos países da nossa Europa em que a defesa da "identidade cultural europeia" nunca produziu qualquer medida pertinente para gerar modelos de convivência e colaboração, mais equilibrados e mutuamente interessantes, com o poder imenso das empresas americanas

Vamos, então, queimar os "blockbusters" americanos na fogueira de um qualquer fundamentalismo "cultural"? Quem escreve este artigo recorda-se de ter sido insultado por ter defendido entusiasticamente um filme genial chamado Tubarão (1975), de Steven Spielberg, precisamente o capítulo zero da idade moderna dos "blockbusters". Além do mais, mesmo considerando toda a legítima diversidade de juízos de valor que os "blockbusters" dos últimos 40 anos possam suscitar, parece elementar reconhecer que não há qualquer unidade cinematográfica (e também cinéfila) entre, por exemplo, o experimentalismo de Tim Burton com a personagem de Batman e as lógicas de produção de muitos títulos recentes com chancela Marvel. Uma vez mais, a estupidez seria deslocar a reflexão sobre a vida - e a sobrevivência - do mercado cinematográfico português para os jogos florais de oposição pueril entre filmes "bons" e "maus", "melhores" ou "piores".

Não retiro qualquer gosto ou prazer destas evidências cruéis que voltam a emergir, para as quais, aliás, repetidas vezes chamei a atenção. Sem que isso, entenda-se, me faça sentir um qualquer "cruzado" iluminado por alguma razão superior. De facto, as mais desencantadas avaliações das estratégias dominantes no actual cinema americano têm vindo do interior das respectivas estruturas de produção, e também do jornalismo especializado dos EUA. No dia 12 de junho de 2013, numa conversa organizada pela Escola da Cinema da Universidade da Califórnia, os presentes escutaram mesmo uma dramática chamada de atenção para os efeitos normativos (da produção à difusão) do poder financeiro dos "blockbusters" e, nessa medida, para os perigos de "implosão" económica de Hollywood - o autor de tal chamada de atenção não foi um jornalista nem um crítico de cinema, tão só um realizador/produtor que dá pelo nome de Steven Spielberg.

Não simplifiquemos. Fosse qual fosse a anterior dinâmica do mercado cinematográfico, ninguém poderia estar preparado para responder e corresponder, de modo automático e eficaz, à situação de pandemia que estamos a viver. A questão que aqui se comenta é de outra natureza: os problemas agora apresentados (cuja existência ninguém nega) são também indissociáveis de décadas e décadas de distribuição/exibição em que se foi deixando de pensar a dinâmica cultural do mercado, substituindo tal pensamento pela ideologia mecanicista de um conceito de marketing que se limita a transferir as suas energias (e os seus investimentos) do lançamento de um "blockbuster" para o lançamento de outro "blockbuster".

Dinâmica cultural? Então a distribuição/exibição tem a ver com a cultura? Claro, meus senhores. A gestão cultural está longe de se reduzir aos modos de apoio ou financiamento promovidos pelas estruturas estatais. E convenhamos que pedir a um representante do Estado que tenha em conta a importância da estreia de um filme Tenet é um bizarro oxímoro, involuntariamente sarcástico, que eu não desejaria nem mesmo ao mesmo incompetente dos ministros...

Na dinâmica cultural de uma sociedade todos os valores participam, desde o modo de promover os smartphones como instrumentos de um novo conceito de felicidade até aos ecos infinitos de um video colocado online por Cristiano Ronaldo... Acontece que os mecanismos dominantes do mercado cinematográfico português trabalham, há décadas, para contrariar a exposição e exploração comercial da própria diversidade do cinema, gerando um público (também ele dominante) que desconhece e, muitas vezes, menospreza tal diversidade - com todas as consequências financeiras que isso implica.

Na prática, em muitos casos, a sobrevivência do mercado, isto é, o equilíbrio das empresas, passou a ser pensado apenas em função daqueles três ou quatro "blockbusters" que, ao longo de um ano, permitem elaborar uma boa folha de receitas. De tal modo (e seria apenas irónico, se não fosse trágico) que o mercado passou a dar-se ao luxo de ignorar a própria pluralidade interna da produção americana. Infelizmente, poderíamos citar dezenas de exemplos reveladores dessa indiferença que, em última instância, condiciona o próprio poder comercial das empresas. Recordo apenas um desses exemplos, sintomático de uma triste falta de agilidade comercial: no início de 2010, apesar da fortíssima candidatura de Jeff Bridges ao Óscar de melhor actor, o filme Crazy Heart não chegou às salas portuguesas, tendo sido lançado em DVD sem qualquer promoção específica, tanto quanto percebi no pressuposto de que a música "country" não era um bom trunfo comercial... Bridges ganhou, tendo sido feita de urgência uma capa para a respectiva edição em DVD, assinalando o seu triunfo.

Não há nada de irónico ou pitoresco neste estado de coisas. Assistimos, assim, ao triunfo de uma ideologia de "marketing" que, para lá de investir o essencial dos seus recursos financeiros num número muito reduzido de títulos, não tem em conta o cinema como história, memória e património. O que, entenda-se, não significa que o mercado tenha que ser gerido por conceitos "universitários" de cinefilia. Significa, isso sim, que o mercado desistiu de encarar outro tipo de diversidade, necessariamente complementar: a diversidade dos próprios públicos.

Ninguém discute a delicadeza (humana, antes do mais) que, perante a ameaça do covid-19, envolve a reabertura das salas de cinema. Trata-se apenas de não escamotear uma crua realidade: o mercado corre, agora, o risco muito sério de ser penalizado pela fragilidade, para não dizer ausência, de estratégias de consolidação de públicos que se foi adensando ao longo das últimas décadas.

A esse propósito, vale a pena reparar no que está a acontecer no Japão que, como é sabido, é um dos mercados mais importantes (leia-se: mais rentáveis) para os produtos americanos. Assim, a reabertura das salas tem sido feita, em parte, com a reposição de títulos como O Feiticeiro de Oz (1939), A Leste do Paraíso (1955), Ben-Hur (1959), Rio Bravo (1959), West Side Story (1961), Bonnie e Clyde (1967) ou E.T., o Extraterrestre (1982). Porquê? Porque, como disse um responsável de uma das maiores empresas japonesas de distribuição, são filmes "populares". Ou seja: eis um mercado que não desistiu de encarar o património cinematográfico como um fundamental valor cultural. Que significa "valor cultural"? Significa, rigorosamente e sem ambiguidades: comercialmente rentável.

Se a reabertura do mercado correr muito mal, o que ninguém deseja, é bem provável que este ministro e o actual governo acabem por arcar com a "culpa" pelos problemas da distribuição/exibição em Portugal - na certeza de que os trabalhadores das respectivas empresas serão sempre os mais penalizados. Também aí, importa relativizar. De facto, ao longo das últimas décadas, e apesar de alguns meritórios esforços individuais, todos os governos (incluindo aqueles a que estiveram ligados as forças que agora se movem nas esferas do poder) têm mantido uma atitude de distanciamento, eventualmente de indiferença, em relação à lenta degradação do mercado cinematográfico, envolvendo tanto a desertificação do circuito de salas da "província" como o já referido estreitamento da oferta. O panorama justifica todos os pessimismos. Parece mais fácil acabar com o cinema em Portugal do que salvá-lo. O que, em qualquer caso, não nos deve impedir de enunciar uma certeza: a de que, "do outro lado", há quem mantenha uma relação forte com os filmes. Quem? Os críticos? Não: os espectadores (até porque ser crítico de cinema é, antes do mais, cultivar e aprofundar a sua condição de espectador).

Está por fazer uma reflexão consistente, capaz de gerar consensos tão alargados quanto possível, sobre o que significa difundir filmes na idade do digital e do streaming. Na certeza de que, mais do que nunca, a defesa das salas é uma pedra de toque de qualquer política cultural minimamente consistente. Seria preciso um milagre para, agora, tantos problemas acumulados serem resolvidos com a estreia de Tenet. O que, confesso, não me impede de esperar e, mais do que isso, desejar que seja um grande filme.

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