Brilho de antiestrela

Tinha pinta de estrela, especialmente quando subia ao palco, onde se sentia “mais completo” (recorro aqui a uma conversa com mais de uma dúzia de anos), enchia-se de orgulho quando o “aproximavam” de Keith Richards, um dos seus heróis do rock e, em particular, da guitarra (outra conversa, em cima da publicação da biografia do Rolling Stone, em que ninguém no Alfa Pendular percebeu as gargalhadas e o entusiasmo de dois “maduros”, por acaso sentados lado a lado). Depois, na “vida civil”, sempre lhe conheci uma generosidade rara - ainda ontem ouvimos o Adolfo Luxúria Canibal recordar que, nos primeiros tempos dos Mão Morta, o grupo de Braga chegou a utilizar instrumentos dos Xutos & Pontapés, com empréstimo intermediado pelo Zé Pedro; ainda ontem ouvimos o Luís Montez referir as enérgicas insistências do Zé Pedro para que fosse dado espaço a novas bandas e novos músicos nos festivais que o Luís organiza. Era a antiestrela, disponível, interessado, conciliador de ideias fortes, e ainda tinha aquele sorriso que abraçava toda a gente. Talvez por isso, pela simplicidade magnética, nunca se ouviu ninguém chamar-lhe José - era o Zé Pedro e bastava.

Claro que a história do Zé Pedro passa - e muito - pelos Xutos, de que foi fundador. Mas, se isso é património comum e merece ser celebrado, sempre, convém não esquecer o divulgador, crítico, radialista, apresentador, DJ, um dos homens que nos viabilizou o Johnny Guitar, de boa memória, depois de extinto o Rock Rendez-Vous. Quando, no tempo em que ainda não havia telemóveis, se queria encontrar o Zé Pedro, bastava procurar o concerto mais próximo, já que ele arranjava maneira de não perder um. Convivemos de perto no festival Guitar Legends de Sevilha, em 1991, um momento de crise dos Xutos em que ele se recusou a ficar parado e a esmorecer. De resto, tocou com meio mundo, andou pelo Palma’s Gang, formou os Ladrões do Tempo e ainda arranjou maneira de publicar um álbum em nome próprio, Convidado Zé Pedro, em que se reunia muito do que tinha espalhado por projetos e colaborações dispersas.

Há uns anos, pediram-me um trabalho com ele, que deveria escolher os 10 álbuns da sua vida. Quando passámos à concretização, apareceu-me aflito: tinha reunido 50 e não conseguia prescindir de nenhum. Não era exibicionismo, era amor pelo rock. Ou melhor: pela música, que também lá andavam pelo meio um de Miles Davis e outros de “desalinhados”, Resultado: a revista abriu o “bolso” a mais espaço e, depois, o Zé Pedro ainda me telefonou a dizer que tinha gostado muito do desfecho.

Nos anos mais chegados, o Zé Pedro andou - apesar da saúde - feliz, por obra e graça da Cristina e porque os Xutos nunca perderam o balanço, a capacidade de contágio e a autenticidade de que ele era um espelho, até quando expôs publicamente a sua vida. Não era o melhor guitarrista do mundo e arredores, mas tinha uma alma de que transbordavam a crença e o gosto. Escreveu várias canções, uma delas um hino: Não Sou O Único. Aqui, podemos e devemos discordar: estou certo que os seus irmãos de palco, de estrada e de estúdio, o Tim, o Kalú, o João e o Gui, subscreverão a ideia de que o Zé Pedro era realmente único. Porque não há outro assim. Espero, agora, que alguém replique uma iniciativa que o vi assumir, há mais de 37 anos, quando num concerto (primeira parte de Wilko Johnson, no Pavilhão do Belenenses) pediu “um minuto de ruído” em memória de Bon Scott, vocalista dos AC/DC, que tinha morrido uns dias antes. Silêncios é que não, que o Zé Pedro não era desse clube.

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